quinta-feira, 5 de março de 2009

Making Of

Ao longo dos meses, coletamos algumas fotos e scans que mostram um pouco do "behind the scenes" do que produzimos. Este post será um apanhado geral do nosso material visual extra (e contém algumas imagens já postadas antes). Infelizmente, o destaque ficou quase que inteiramente para o começo e o final do projeto. O meio ficou praticamente de lado por dois motivos: continuamos emulando basicamente a fórmula inicial, e Alex, o desenhista no período, estava morando em outra cidade, o que dificultou o acompanhamento direto de seu trabalho e consequente documentação em off.

Enfim, vamos lá, servirei de guia (clique nas imagens para ampliá-las):

-Nascimento-


Foi aqui que nasceu a revista, praticamente; onde todas as histórias foram escritas. Perceba o copo de tereré no canto inferior direito; algo imprescindível em todo o processo.


Estas folhas foram feitas logo após a delineação das histórias; são os pontos de interconexão, sempre ao alcance para não correr o risco de esquecer algum.


Afixados na parede (e janela). Infelizmente, tive que retirá-los pouco tempo depois, para preservar a obra, porque vários leitores que frequentavam minha casa não conseguiam segurar a curiosidade e corriam para ler as anotações. Porra, assim as coisas perdem a graça.


Abaixo, sobre a mesa, outra folha com anotações que me ajudaram muito: a linha cronológica das histórias. No papel amarelo pequeno, grampeado, tem até mesmo a hora e o minuto de algumas ações de certos personagens em certas histórias.


Depois, com tudo planejado, na casa do Mauro, esse seria o primeiro esboço (já arte-finalizado) para a primeira história: Alberto, Santiago e Luis. Mas acabamos usando outro desenho.


Esboço para capa da primeira edição.


Esboço arte-finalizado para capa da primeira edição. Também acabamos usando outro desenho.


Aqui vemos um pedaço da mesa de desenho do Mauro. Pode-se facilmente perceber que a arte foi embalada por muitos tragos de cigarro. O que não se pode perceber é a outra metade do combustível: cerveja (média de cinco latinhas por desenho).


-Primeira edição-

Depois de diagramada e impressa, xerocamos 300 cópias do primeiro número (que já esgotaram há um bom tempo). O trabalho duro estava para começar.


As folhas prontas para serem manuseadas.


Depois de ordenadas corretamente e dobradas.


Grampeando.


Dobrando os grampos (não consegui achar a desgraça do grampeador comprido, e acabei me acostumando a fazer dessa forma. No fim das contas, até achei melhor assim, embora fosse mais trabalhoso).


Grampeadas.


Pronta para ser embalada.


A primeira de muitas...


... ou as primeiras de muitas.


Depois de prontas as edições, precisávamos de um expositor BEM econômico. Assim, chegamos ao primeiro modelo da nossa caixinha.


Ela pronta.


A versão final e melhorada.


-Materiais-

Depois de penar bastante com xerox e impressões mal-feitas por terceiros, uma pancada de desventuras com impressoras, tintas e toners, finalmente consegui montar em casa um pequeno estúdio, que atendesse a demanda das revistas. Ficou muito melhor, porque além de produzir quanto quisesse, na hora que quisesse, consegui maior controle sobre o resultado final (de fato, gastei muita tinta imprimindo testes). Na época da quinta edição, já tinha adquirido tudo, mas pra variar, tive novos problemas. Só a partir da sexta edição é que todo esse material entrou em pleno uso.


A grande garota. A impressora que me poupou tanta dor de cabeça, com um adorável bulk ink acoplado (que foi o que de fato motivou-me a comprá-la, pois diminuiria os custos de impressão de uma forma muito favorável).


Cartuchos e tintas para recarga. O motivo de eu ter as mãos pintadas em certas épocas. Ossos do ofício.


Seladora, guilhotina e plástico. Gostou das revistas alinhadas (a partir da 4ª edição) e sempre embaladinhas, impedindo que você ou qualquer um pudesse molhar ou sujar? Agradeça esses três acima.


Por último, as pequenas ferramentas de manufatura: extrator de grampos, grampeador, grampos, molha-dedo, borracha de base para grampear, agulha para perfurar os sacos fechados e liberar o ar preso e papel.


-Última edição-

Até o fim seguimos o mesmo processo. A seguir você vê a primeira tiragem do último número, pronta para venda:


Aqui...


... e aqui.


-Menções honrosas e aparições-

Tivemos destaque em algumas publicações (e blogs), mas só temos registros de algumas dessas ocasiões. Também montamos bancas de venda em certos eventos, mas desses não temos documentação nenhuma, apenas o material que utilizamos na última. Confira:


Matéria no caderno de cultura Folha3, do jornal Folha do Estado.


Na revista RDM...


...e em destaque.


Na falecida revista Espectador...


... e em destaque.


Uma das vezes em que tivemos destaque na coluna Inclusão Literária, de Clóvis Matos, publicada semanalmente no jornal CircuitoMatoGrosso.


Este foi o último evento em que montamos banca.


Nesta vez, Alex Leite foi junto, atendendo ao pedido dos organizadores para levar um desenhista que fizesse caricaturas dos interessados (o que acabou sendo um sucesso). Confira na parte em destaque do panfleto a menção à nossa presença.


Estes foram os cartazes, feitos de última hora, que levamos para exposição.

-Otras cositas más-


Esta foi a comanda que usei para controlar os produtos nos pontos de venda. A cada nova edição, imprimia uma nova e atualizava-a. Foi uma mão na roda.


Este foi o lugar em que tudo começou, o mencionado (no post anterior) estabelecimento de Mauro Thompson (que está contratando decorador urgente!).


O orgulho do papai: a coleção completa, pendurada na parede.


Por fim, alguns desenhos SD de personagens da revista, por Alex Leite. No próximo post colocarei-os em destaque.

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Encerro por aqui este extenso post de making of. Mas não acabou: além dos desenhos citados, disponibilizarei ainda uma ou outra coisa, como caricaturas de nós, os criadores (porque nunca ficamos bem na foto) e uma ou outra enquete para você opinar sobre o projeto.

Aguarde!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A história por trás das histórias

Este texto foi publicado no final da edição 10, a título de curiosidade. É um apanhado que fiz sobre todo o processo de criação da revista, e um pouco além disso. É meio grande pro que se costuma ver por aqui, mas pra quem acompanha o projeto, tem interesse ou vontade de fazer algo semelhante, vale a pena. Segue ele, na íntegra:

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Considerações finais ou

A franca história de tudo isso ou

Zé, desce mais uma ou

A história por trás das histórias


Entre uma batida natural e um açaí na tigela, entre buzinadas de motoristas abusados e desaforos de pedestres mal-criados na rua em frente, entre clientes pechincheiros, carros de som, mendigos pedantes expulsos a grito, telefonemas inesperados e resmungos de toda sorte: foi no meio de tudo isso que nasceu a Contos Extraordinários.

O referido lugar é o estabelecimento comercial de Mauro Thompson (que, ao contrário do que minhas descrições parecem denotar, é um lugar bastante agradável), no centro da cidade de Cuiabá. É onde gastamos saliva por anos a fio discutindo uma infinita quantidade de coisas; a maior parte delas os produtos culturais que tanto nos faziam (e fazem) a cabeça: filmes, seriados, games, quadrinhos e literatura.

Entre um e outro argumento sempre sobrava espaço para conjecturas; estávamos de tempos em tempos criando e idealizando vários projetos, tanto individualmente quanto em conjunto. Eu sempre escrevera e Mauro sempre desenhara, e como gostávamos de criar, não apenas reproduzir, era um caminho óbvio. Alguns até mesmo chegaram a começar (como algumas pretensas HQs), mas nunca saíram realmente do papel.

Depois de algumas experiências na faculdade de jornalismo (que cursava na época, início de 2008), estava pensando seriamente em publicar alguma coisa de minha autoria. Compartilhei com Mauro a idéia e logo estávamos visualizando algo muito maior: uma editora alternativa. Descontentes com o pouco espaço e a quase inexistente publicação local (impressa) de material alternativo, e sabendo que esse tipo de coisa era produzida (como nós mesmos podíamos provar), a idéia era que começássemos fazendo alguma coisa nossa, testando o mercado, e depois evoluir (se desse resultado), lançando material de terceiros. Nisso entraria tudo: quadrinhos, poesia e prosa (literatura em geral), jornalismo (principalmente gonzo e investigativo), ilustrações, críticas, ensaios, charges, etc.

Então decidimos: começaríamos com uma revista, um magazine, que abarcaria tudo aquilo que gostaríamos de publicar ou ver publicado, servindo de vitrine para tudo que viria no futuro. Criamos pautas, esboços de roteiros e diagramação, idéias para capas, entre outras coisas. Mas, novamente, nunca saiu do papel.

Nessa época chegamos a idealizar o formato, mas não fomos muito longe. Precisaríamos de dinheiro, gráfica, distribuição, propaganda. E isso visando o público diminuto de um país que não tem o costume de ler, numa cidade com menos costume ainda. Nos tocamos de que não seria fácil.

Passei uns dois meses amargurando a idéia. Lentamente, ela começou a desfalecer; a editora ficou para trás, e uma pequena seção do que seria nossa revista começou a tomar conta de minha mente de maneira febril: os contos. Por que não lançar uma revista de contos? Parecia uma boa idéia. Poderia ser algo com periodicidade definida, com vários contos independentes... Mas baseados em quê?

A resposta veio em seguida: interligações. Cada história teria pontos de interligação. Dividiria-as em duas partes, ou “cenas”, que se completariam, como começo e fim (ou fim e começo), duas versões sobre o mesmo acontecimento, dois núcleos de personagens narrando a mesma história ou histórias compartilhadas, etc. Não importava muito o assunto, o importante era seguir essa linha de raciocínio: seria a característica principal.

Tive a idéia geral do primeiro conto e o dividi em pequenos tópicos. Com a mente a mil, fui até a loja do Mauro e começamos a trocar idéias. Ele ficou claramente empolgado, e ali mesmo começamos a jogar conceitos que se tornariam a espinha da segunda e terceira histórias. Mas antes de prosseguir, tínhamos que passar novamente pelo formato, estudando formas viáveis de publicar.

Citei vários exemplos de publicações daqui e de fora. E ficamos pasmos ao perceber que TUDO (pelo menos o que vimos) fora publicado com incentivo privado ou público (este a estarrecedora maioria). Não havia nada local nesses moldes que aparentemente se sustentasse de suas próprias vendas ou publicidade. Não queríamos aquilo: ser mais um na fila esperando dinheiro de alguém ou algo para só assim começar a publicar (não querendo com isso desmerecer os que assim fizeram - ainda podemos trilhar o mesmo caminho algum dia). Em parte para não ter amarras de qualquer tipo, não tendo que responder a ninguém, e em parte para provar que conseguiríamos fazer sozinhos.

Seria infinitamente mais fácil usar as ferramentas da Internet, como muitos já fazem, mas, saudosistas que somos, queríamos o impresso, o tradicional, o desafio do consumidor cara a cara com o produto (não obstante, sempre tivemos consciência do poderio de uma ferramenta virtual, tanto que o blog acabou sendo criado antes mesmo do lançamento da revista).

Então Mauro lançou a grande cartada: “não precisamos de muita coisa. Podemos nos basear nos pulps, que eram feitos com o material mais barato possível”. Sim, era verdade. Nunca faria frente a um livro convencional, mas esse não era o objetivo. Fizemos as contas e logo vimos que poderia dar certo: papel A4 normal e xerox. A capa teria que ser impressa e colorida (o que acabaria sendo a parte mais cara), para chamar a atenção, ou realmente não venderia nada (no fim, conseguimos achar alguém que fez por um preço bem menor que o de mercado). Felizmente, tínhamos o pouco dinheiro necessário para começar.

Depois de tudo isso, teríamos que manufaturar as revistas (separar, dobrar e grampear) e ainda selá-las em plásticos protetores, já que sabíamos que não seriam lá muito resistentes. O invólucro simples justificaria um preço baixo (considerando-se que não seria produzida em larga escala, tornando os custos bem maiores). E estaria então pronta para ser vendida. Mas o grande problema se avizinhava: vender onde?

Esquadrinhamos as bancas e livrarias num pedaço de papel, e começamos a escolher. Alguns conhecidos (e o próprio Mauro) tinham estabelecimentos que poderiam servir também (por mais que não tivessem nada a ver com esse tipo de produto). O plano torto estava traçado; agora faltava meter a mão na massa.

No mesmo dia, à noite, iria à casa do Mauro para terminar de conceituar as primeiras edições: queria ter em mente pelo menos dez delas. Lá fizemos a mesma brincadeira de jogar conceitos e adicionar detalhes. Criamos o suficiente para nove edições e, não sei em que altura, a idéia de interligação já tinha evoluído para interligar também todas as histórias, culminando com algum tipo de clímax na décima (que se tornaria eventualmente a última) edição.

Em casa, pacientemente diluí os conceitos em tramas mais ou menos delineadas, criei os personagens e espalhei várias pontas soltas. Ao fim das nove primeiras, voltei atrás, adicionando mais aberturas e começando a costurá-las. No fim, esses detalhes acabaram tomando forma meio que independentemente e transformaram-se na última história. Tudo estava anotado e organizado, com direito a uma minuciosa linha temporal, do início ao fim (embora tenha fugido dessas propostas iniciais várias vezes) quando sentei para escrever a primeira história; isso acabou sendo uma mão na roda, como percebi depois.

Desde os primeiros desenhos, passando pela diagramação e manufatura, até a distribuição, tudo foi feito sem o mínimo conhecimento de causa. As negociações estabelecidas com os primeiros pontos de venda foram na maioria satisfatórias (algumas terminaram de forma desagradável). O blog para acompanhamento do projeto já estava criado e abastecido, mesmo que minimamente. Pronto. Estávamos (capengamente) no mercado.

A intenção inicial de publicação semanal (e depois quinzenal) revelou-se impossível na prática. Eu já me dedicava de corpo e alma ao projeto na época; tornou-se de vez meu trabalho. E nem assim conseguia me adequar ao ritmo pretendido. Mauro, por sua vez, tinha inúmeras obrigações com a loja, entre outras coisas. O lançamento da segunda edição demorou tanto por causa dos desenhos que acabei tendo que apelar para outro companheiro: Alex Leite.

Sua dedicação desde o início foi admirável; para se ter idéia, todos os desenhos de sua edição de estréia foram realizados em um único dia (devido à minha pressa), durante suas férias na cidade. E seu nome nem sequer constou na capa (que já estava pronta há algum tempo, o que foi muito injusto; mas corrigido na segunda tiragem da revista). Da terceira à nona edição, tudo foi realizado via Internet, pois ele residia em Campo Grande nesse período, a 700 quilômetros de distância.

Mais ou menos na mesma época, outro grande amigo adentraria o time, numa coincidente conversa franca e crítica a respeito da primeira edição: Alvaro Souza, outro aspirante a escritor e um craque de gramática, cujos apontamentos e correções aos meus escritos acabaram elevando incomparavelmente a qualidade da publicação.

Infelizmente, a partir do terceiro número, Mauro, o co-idealizador do projeto teve que desistir do posto de desenhista, devido à sua extenuante carga de trabalho. Mas as revistas continuaram, evoluindo sempre que necessário (por exemplo, a partir desse número todas foram impressas, e não xerocadas).

Eu cuidava da manufatura das revistas e da distribuição. Com esse revés, acabei encarregado também da diagramação e da construção da capa, além do texto.

Com os dois novos parceiros continuei a escrever e publicar. Vale apontar que desde a entrada de ambos, tentei manter as coisas da forma mais profissional possível, revertendo-lhes parte do lucro e material (que sempre somou uma quantia ínfima, muito inferior ao que mereciam). Felizmente, eles abraçaram o projeto com tanto empenho e dedicação, que acabaram fazendo mais pela pura e simples paixão de contar estas histórias do que visando qualquer ganho.

Seguimos em frente, confiantes, embora sempre com atrasos no cronograma. Algum destaque em jornais, blogs e revistas nos deram certa visibilidade. Montando banca em alguns eventos, constatei pessoalmente que muitos estranhos se interessavam. Com o tempo, percebi que a revista tinha finalmente se libertado do círculo de conhecidos que rodeava todos os envolvidos em sua produção; e foi provavelmente isso que me deixou mais orgulhoso. Porque, como idealizara (criar um produto alternativo para o público local), as pretensões iniciais estavam sendo correspondidas. E o melhor: as pessoas pareciam gostar do que liam/viam.

Consegui, lá pelos idos da quinta edição, terminar de trazer toda a produção para dentro de casa (algo que vinha almejando muito há um bom tempo), munindo-me finalmente de todo o material necessário para publicar sozinho a revista, com boa qualidade. A partir daí as coisas ficaram mais fáceis, já que finalmente tinha o know-how necessário. Olhando para trás, vejo quantos erros poderiam ter sido facilmente evitados se tivesse então a experiência que tenho hoje (mas errando é, infelizmente, o único jeito de aprender). Incluo aí principalmente o stress na produção da terceira, quarta e quinta edição, numa reviravolta desumana (e financeiramente suicida) em cima de impressoras e tintas, que quase me fizeram desistir de tudo.

Enquanto isso, eu e Mauro continuamos mantendo contato e discutindo sobre a revista. Felizmente ele conseguiu arranjar algum tempo para voltar a ilustrá-la, fazendo a capa e um desenho interno da nona edição, e a capa do último número.

Vale lembrar também do suplemento que acompanhou os números 4 e 6, as Contos Extraordinários Bolso, resquícios daquela vontade editorial de publicar material de terceiros, que foram, inclusive, muito bem recebidas.

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A última edição é finalmente lançada, praticamente oito meses depois da primeira; fica claro o atraso que decorreu de nossas previsões semanais ou quinzenais de lançamento. Mas, independente dos percalços, finalizamos o projeto com dez edições, como prometido no início. Não consigo descrever em palavras o orgulho de ver o projeto encerrado da forma que foi concebido.

Espero que mais iniciativas como essa surjam com o tempo, oferecendo algo de diferente e inovador ao público; e falo isso como leitor, não como autor. Que todos que anseiam por fazer algo semelhante (e podem) saiam de suas tocas e o façam, bradem ao mundo suas histórias e devaneios. A Contos Extraordinários é uma prova cabal de que sim, isso pode ser feito.

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Por último, costumo dizer que estas histórias são uma grande homenagem a alguns clichês de vários gêneros cinematográficos, que sempre me encantaram muito, não importa quantas vezes revisitados.

Fica aqui a dedicatória a todos aqueles que inspiraram, criaram e participaram destas obras.


Ricardo Santos - fevereiro de 2009


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Em breve: making of e outros extras

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Capa da 10ª edição - Já à venda!!!

É, depois de novos atrasos e muita correria (motivo pelo qual não fiz este post antes), lançamos a última edição. Aqui vai a capa para apreciação (clique na imagem para ampliá-la):



Dessa vez não teremos os dizeres da contra-capa porque... Bem, eles não estão lá! Neste último número usamos esse espaço para fazer um painel com todas as nove capas anteriores, e apenas isso.

O que posso adiantar é que esta edição ficou especialíssima, com 44 págs. (a média vinha sendo 16!), um desfecho pra lá de surpreendente, muitos desenhos e um grande texto de encerramento! E o melhor: com o MESMO preço camarada de sempre: R$3,00!

Falando em desenhos, aqui vai um aperitivo do trabalho de Alex Leite (que fez toda a arte interna desta edição; Mauro Thompson ficou com a capa):



E aí, interessou? Tá esperando o que pra completar (ou começar) sua coleção?

Saiba onde comprar as revistas clicando AQUI.

Muito em breve começarei a disponibilizar vários extras, então continue ligado(a)!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Reta final

Depois de algum tempo de férias, voltamos à ativa!

A última edição está no forno, e a previsão de lançamento é 20 de janeiro.

Continue antenado(a)!

EDIT em 14/01: infelizmente, devido a alguns atrasos habituais e um período em que estarei ausente da cidade, o lançamento da última edição fica postergado para o início de fevereiro. Em todo caso, o material está ficando absurdo (minha opinião parcial, não leve muito em conta). Aguarde!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Edição 09 à venda!

Lembre-se: a revista está à venda nas Livrarias Adeptus dos shoppings Goiabeiras e 3 Américas e na Livraria Janina do Shopping Pantanal. Você também as encontra em algumas bancas da cidade e outros pontos diversos. Confira todos eles clicando AQUI.

Para aqueles que não moram em Cuiabá-MT, é fácil: mande um e-mail para contosextraordinarios@gmail.com solicitando sua edições!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Capa da 9ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

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Notou alguma diferença nesse desenho? Percebeu um terceiro nome na parte de baixo da capa? Poisé, Mauro Thompson, que desenhou a edição 1 e metade da 2, e as respectivas capas, volta à ativa. Fora isso, Alex Leite vem dilapidando as histórias com cada vez mais desenhos, e cada vez melhores. Enfim, esta edição está duca!

Estamos chegando ao fim... Você que vive falando que não tem dinheiro para comprar as revistas, guarde um pedaço desse 13º! Apenas mais uma edição e finalizamos. Se tem gostado dos contos, acompanhe até o fim, muitas surpresas estão a caminho. E, por que não, compre a coleção de presente para alguém que você acha que se interessará. Afinal, é natal! Muito em breve a nova edição estará à venda, continue antenado(a).







Seguem os excertos da contra-capa da 9ª edição:

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"Aqui, sorte não costuma te manter vivo por muito tempo. O que te compra as chances de sonhar em atingir a diminuta expectativa de vida deste emprego, é a sensibilidade de notar quando algo está pra acontecer, a esperteza de nunca ficar no lugar errado na hora errada, e o respeito que você conquista se não demonstrar medo e for seguro de si.
Às vezes, nem isso basta."

A rotina do Presídio de Segurança
Máxima Carrara está prestes a
mudar. Acompanhe Alan, um dos
guardas, num tour revelador por um
dos lugares mais perigosos do
mundo.

sábado, 29 de novembro de 2008

Palhinha do 8º conto

Faz um bom tempo que isso não acontece... Mas nada como a própria história para mostrar do que se trata o conto. Aqui vai um trecho do começo da 8ª edição.

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Balas Perdidas
Fumaça, jipes e torniquetes

CENA 1


Suas asas, seu porte, a angulação perfeita de seu corpo esguio, numa subida graciosa, escalando os degraus de ventos tão abundantes e frescos àquela altura, rumando para as nuvens, para o branco leve - interrompida pela bala torpe e improvável, atravessando seu peito e costas, desviando-lhe do vôo meticulosamente planejado. Seu gracejo se acaba num segundo, seu corpo contorce-se numa queda livre e desastrada, suas penas brancas dançando confusamente ao léu, até que atinge o teto da casa, no centro do caos humano, brutal e mortífero. O baque no cimento perde-se em meio a gritos e tiros e passa despercebido para os homens logo abaixo.

- Puta merda! PUTA MERDA! FUDEU!

- Cala a boca, Solano, PORRA! - grita o sargento Lopez.

São cinco deles. Três soldados rasos, Solano, Jordão e Barreto, um cabo, Silva, e o sargento Lopez. Tudo dera errado, incrivelmente errado.

- Merda! Eu vou matar aquele filho da puta! Nos mandar pra cá, pra morte certa! - continua Lopez, dizendo em outras palavras o que o soldado que mandara calar a boca acabara de falar.

Estavam no meio de uma situação delicada: os valentes soldados de um país longínquo tentando impor a paz por meio da violência, num território pobre e desolado. A guerra civil era uma realidade; as dezenas de clãs locais tentavam tomar o poder que um governo em ruínas não exercia, e no meio do caminho inocentes eram trucidados, pela violência ou pela fome. Ali, na capital, qualquer fagulha tornava-se uma labareda contundente, que deitava facilmente dezenas de vítimas no chão banhado de sangue, a maioria delas inocentes sem ter para onde correr. O exército chegara há meses, e sufocava lentamente enquanto os soldados tombavam sem conseguir livrar a cidade de seus “elementos nocivos”.

- Até agora não sabemos se eles realmente nos mandaram pra cá, sarja - disse Silva.

Estavam refugiados num cubículo de cimento que, a notar pelos colchões e trapos sujos espalhados pelo chão, alguns há pouco chamavam de lar. Uma porta de madeira estropiada e uma janela selada com tábuas eram o que completava a decoração primitiva do quadrado de concreto. Há quinze segundos entraram ali. Não tiveram que esperar muito por companhia.

A porta, à direita dos homens, despedaçou-se de vez com o impacto de novas balas, os pedaços entrecortados de madeira voando e espatifando-se na parede do outro lado. Os cinco, agachados rentes a uma das paredes, com os rifles em punho, apenas esperavam o momento certo.

- Cala a boca, Silva. Aí vem eles - resmungou o sargento.

Os insurgentes não tinham uniformes, proteção ou treinamento adequado; usavam roupas comuns e ficavam muito mais à vontade com enxadas ou martelos do que com armas. Que, a propósito, eram em grande parte velharias, financiadas com as mixarias adquiridas nas pilhagens locais, compradas em remessas de grande quantidade; sobras de outras guerras negociadas por valores baixos. De fato, quantidade era a única vantagem dos clãs locais. Mas não de armas, e sim de homens, de mártires, de suicidas.

O primeiro deles entrou pulando, mas virado para o lado errado; foi jogado para frente no ar e caiu de boca no chão, com mais de vinte balas cravejadas em toda a extensão traseira de seu corpo. Os homens seguintes entraram mirando o lado certo, embora atirassem a esmo. O ambiente foi inundado por uma sinfonia sangrenta e frenética, de dentes cerrados e olhos incandescentes. Caíram conforme entraram, uns sobre os outros, numa carnificina incontrolável. A música só cessou quando o último da fila caiu, metade de seu corpo além da soleira da porta. Os cinco soldados olharam para os lados, checando os companheiros, mal acreditando na pilha de mais de vinte cadáveres amontoados na sua frente.

- CARALHO! Tá todo mundo bem? - perguntou Barreto, o mais próximo da parede rente à porta, e, portanto, o mais protegido - Tô ileso.

- Dois tiros na perna - disse Jordão ao seu lado, segurando o rifle apontado para a porta com uma mão e a perna ferida com a outra.

- Tô tranqüilo - falou Solano, na outra ponta da parede.

- Os desgraçados acertaram meu braço esquer-- Argh! - resmungou o sargento Lopez, puxando o tecido da camisa camuflada pelo buraco feito pela bala, cutucando sem querer o ferimento - Barreto, você e Solano empilhem esses corpos na porta, para cobertura. Com ela aberta somos presa fácil. Vão!

Enquanto os dois, ainda agachados, aproximavam-se dos cadáveres inimigos, começando a empilhá-los, Jordão cutucou Silva, ao seu lado esquerdo. O cabo não se mexeu. Cutucou-o de novo, mais forte, e dessa vez o colega tombou para o lado, inerte.

- Silva?

O tiroteio recomeçou. Assim que os insurgentes viram os soldados tentando empilhar os corpos, barrando a entrada da casa, voltaram a atirar em peso, embora não se aproximassem muito. Barreto e Solano continuaram, apenas tomando mais cuidado, imaginando a infinidade de gente lá fora querendo arrancar-lhes o couro. Cada um pegava numa ponta do corpo, bem rente à parede para que não se tornassem alvos fáceis, e levantavam-no, jogando-o em cima dos outros.

- Vamos, lá, Barreto, vamos fechar essa bosta! - já haviam tampado mais da metade da altura necessária quando uma bala, vinda na diagonal, acertou em cheio a mão esquerda de Solano. Quatro dedos voaram para o chão, encharcados de sangue. Apenas o dedão ficou no lugar. Ele pulou para trás, segurando o pulso da mão ferida com a boa - MEU DEUS! MINHA MÃO!

- Ah, merda! - disse Lopez - Barreto, não vai ter jeito de fazer essa barricada se esses putos não pararem de atirar! Joga uma granada!

- Mas, sargento, e se tiverem inocentes perto? Não devíamos usar elas só em caso de extrema urg--

- Seu bosta! O que cê acha que é isso? Joga, infeliz!

Barreto pegou uma das granadas presas na cintura, soltou o pino e jogou-a por cima dos cadáveres. Os tiros cessaram e eles ouviram os gritos desesperados, na língua local, e, em seguida a explosão.

- Agora vamos acabar com isso - retomou Lopez, soltando o rifle no chão, apoiando-se no braço bom para levantar e pegando o corpo mais próximo - Vamos, Barreto! Tá esperando o quê? Um convite? Ajuda aqui, porra.

Barreto, que continuava agachado ao lado da porta, ajudou o sargento a levantar o corpo. Mesmo com Lopez podendo utilizar uma só mão, eles logo acabaram a barricada, selando a entrada. O calor, que já era excessivo, aumentou mais ainda. Também ficou escuro, mas a luz que entrava pelas frestas das tábuas na janela era o suficiente para iluminar o ambiente. Barreto, agora o único sem ferimentos, começou a arrumar o resto dos cadáveres atrás da pilha, de forma a fortalecê-la. Lopez voltou para a parede e sentou-se ao lado de Silva e Jordão; este desviara sua atenção para Solano, que ainda esperneava do outro lado da pequena casa. O sargento pegou o rifle e pousou-o sobre o colo. Então colocou um dedo na parte superior do pescoço de Silva. Depois, aproximou a orelha de seu nariz. Não sentiu nada.

- O Silva morreu - disse, pesaroso.

- Solano, engole esse choro, homem! Vem aqui, vou fazer um torniquete no teu pulso pra estancar o sangramento - gritou Jordão após as palavras de Lopez, amortecendo seu severo impacto.

Solano levantou-se e em dois passos chegou ao lado do colega, que arrancou um pedaço da camiseta que usava por baixo do uniforme e começou a amarrar em volta de seu pulso.

- Meu Deus... - disse Solano, fazendo careta - Olha a minha mão... Que estrago - Então olhou para o corpo de Silva, para o braço ferido do sargento e para a perna alvejada de Jordão - Não tô querendo ser pessimista, pessoal, mas acho que tamos mortos...

- Cala a boca, Jordão. A gente só tá morto quando tá morto - respondeu Lopez.

Barreto mal terminou de arrumar os corpos, os tiros recomeçaram, agora descompassadamente, acertando toda a extensão da casa.

- Meu Deus - disse ele - por que mandaram a gente pra cá? Estamos no meio do inferno... O rádio pifou de vez? - perguntou, olhando para o sargento, que puxou o aparelho preso na cintura de Silva. Fora alvejado e estava quebrado. Lopez apertou o botão para ver se obtinha alguma resposta, mas a caixinha preta em sua mão não emitiu nenhum som, nada.

- Merda ! - gritou quando jogou o rádio na parede, quebrando-o de vez - GRANDE PEDAÇO DE MERDA DO CARALHO, PORRA!

- Eu não descreveria melhor, senhor - disse Jordão com um meio sorriso na boca.

- E eu não continuaria rindo por muito tempo, Jordão - disse Solano, olhando a janela logo acima deles. Estavam encostados na parede, sob ela - Temos sorte que esses filhos da puta são burros... Essas madeiras não guentariam nem dois segundos se--

Uma rajada de tiros acertou as tábuas, deixando três buracos alinhados. Lopez alcançou Solano pelo pescoço, esbugalhou os olhos e disse, raivosamente:

- Solano, seu maldito desgraçado, ou você cala essa boca imunda ou eu mesmo arranco fora os outros dedos que sobraram, me ouviu? - então o soltou, empurrou-se para trás forçando as pernas no chão, até encostar as costas na parede, levantou o joelho direito e apoiou o rifle ali em cima, mirando a janela - Barreto, recolhe essas armas que tão pelo chão e deixa aqui ao alcance da nossa mão; daqui a pouco acaba a munição. E fica ali, ó, como eu - disse, apontando a parede à sua frente, do outro lado - Nenhum desses filhos da puta vai brincar com a gente. Apareceu, toma chumbo

Barreto rapidamente recolheu o que tinha e jogou-as no chão, distribuindo ao alcance de todos. Jordão terminou o torniquete no pulso de Solano e pegou o rifle e a munição de Silva.

- Certo. Vocês dois cuidam da porta. Essa barricada não vai durar pra sempre - ordenou o sargento.

- Meu Deus - disse Jordão, olhando sua coxa e ignorando as palavras do superior - acho que me acertaram de jeito.

Barreto olhou mais atentamente a perna direita de Jordão, forçando os olhos para enxergar melhor à meia-luz. Só então viu a enorme poça de sangue que a circundava.

- Puta merda! - exclamou ele - Quer que eu dê uma olhada?

- Pra quê, Barreto? Você não entende porra nenhuma disso. Deve ter acertado uma artéria... Olha, o único jeito de eu, e provavelmente vocês, sobrevivermos a essa merda é se vierem nos resgatar rápido, o que acho improvável. Que que cê acha, sarja?

- Todo mundo aqui sabe como funciona, Jordão. Ninguém fica pra trás. Eles virão, cedo ou tarde. Mas virão - concluiu Lopez.

As palavras do sargento foram as últimas ditas em uma pausa de longos minutos. Eles sabiam daquilo. Viriam resgatá-los, de alguma forma. Mas conseguiriam chegar a tempo? Por instantes aquilo ocupou-lhes a mente, num sofrimento latente de imaginar tudo o que poderiam fazer, se saíssem dali com vida.

Então, sem mais nem menos, a cabeça de Jordão despencou sobre o peito.

- Jordão! - gritou Barreto, desesperado, aproximando-se do colega. Solano, ao seu lado, virou-se assustado e levantou sua cabeça. Os dois analisaram-no e em poucos segundos constataram: estava morto. Perdera muito sangue.

- Merda, MERDA! - exclamou Barreto, voltando para a parede - Silva, agora Solano... Daqui a pouco seremos nó--

- Sem choro, soldado! - interrompeu Lopez - Agora somos só nós três. Nós ou eles lá fora. Quando tudo acabar, você vai ter tempo de chorar a morte dos dois.

Barreto engoliu o pesar. Continuaram quietos por mais um minuto. Foi o quanto Solano conseguiu segurar-se.

- Puta merda - disse ele - Tô impressionado com esses idiotas. Quero dizer, são só táb--

Lopez abaixou a arma e disparou. Uma bala passou zunindo pela cabeça de Solano.

- CARALHO, SARJA! - assustou-se ele.

- Soldado, você tem certeza de que não quer calar a boca? - disse o sargento, agora mirando o rifle no meio de seus olhos.


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No mais, confira o espaço que o blog da OCT (Operação Cavalo de Tróia) dedicou ao lançamento da nossa 8ª edição, clicando AQUI!

domingo, 23 de novembro de 2008

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Capa da 8ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

"O primeiro deles entrou pulando, mas virado para o lado errado; foi jogado para frente no ar e caiu de boca no chão, com mais de vinte balas cravejadas em toda a extensão traseira de seu corpo. Os homens seguintes entraram mirando o lado certo, embora atirassem a esmo. O ambiente foi inundado por uma sinfonia sangrenta e frenética, de dentes cerrados e olhos incandescentes. Caíram conforme entraram, uns sobre os outros, numa carnificina incontrolável. A música só cessou quando o último da fila caiu, metade de seu corpo além da soleira da porta."

A Bravo 6 ficou encurralada durante
uma missão. Enquanto os soldados
lutam pela
vida, resistindo a
incontáveis
inimigos, sua salvação
se aproxima.
Ou não?


(extraído da contracapa - edição 8)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

7ª edição à venda!!!

Corra já para comprar a sua!

Saiba aonde clicando AQUI!

sábado, 25 de outubro de 2008

Capa da 7ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

"Saiu inspirando fortemente o ar fresco da manhã. Cumprimentou o vizinho da frente, que também saía para o trabalho, com um aceno de cabeça e um 'bom dia' vigoroso. Desligou o alarme do carro com um aperto no botão do controle acoplado à chave, abriu a porta e ligou o rádio. Deu a ré e saiu calmamente pela rua, aproveitando cada momento, pensando na casa e na família que acabara de deixar para trás. Sua vida era maravilhosa."


Borkman vive a vida dos sonhos:
tem a esposa perfeita, os filhos
perfeitos, a casa perfeita, o emprego
perfeito... Mas algo está errado,
terrivelmente errado.

(extraído da contracapa - edição 7)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

**O Grande Dia de Krentz - CEBolso nº 02

Aqui se encerra o conteúdo da CEBolso nº 02 com um pequeno conto medieval de minha autoria:

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O Grande Dia de Krentz
Ricardo Santos

Ontem ele me disse que seria algo grandioso. Como de costume, sua barba branca tremia enquanto sua boca abria e fechava para expelir as palavras proferidas com tanto ardor. Eu pude sentir, enquanto ouvia, a raiva que permeava suas falas. Eu pude sentir o desejo de vingança que exalava em seu bafo podre de hidromel azedo. Prenunciava as mortes com tanta alegria que não parecia ser um homem que outrora dedicara-se inteiramente a Deus. Se por um lado estava tão contente que não conseguia conter-se, e por isso precisava da ajuda do álcool para digerir suas emoções, eu tremia de medo, pois o dia seguinte seria o dia de minha prova, o dia em que todos saberiam se eu era digno de ostentar o título que conquistara anos atrás, quando a ameaça fora destruída pela lâmina de minha espada.

Assim que o dia raiou hoje, a primeira coisa que fiz foi tomar o leite fresco que Imelda acabara de tirar de nossa vaca, tão magra e desnutrida que pude sentir o leite desencorpado descendo na garganta feito água. Depois fui ao nosso pequeno santuário rezar aos deuses para que nos dessem forças nesse dia tão sombrio.

E agora aqui estou, a caminho do campo de batalha, longe de todos os outros soldados, sem coragem de abrir a boca para dizer uma palavra de consolo aos mais jovens, que vejo me olharem curiosos e admirados, como se minha presença fosse garantia de vitória certa. O peso nas minhas costas é imenso. Tantas vidas esvair-se-ão hoje, e minha vontade é de poder salvar todas, mas sei que as baixas estão inexoravelmente ligadas às guerras. É a lei da natureza.

-X-

O suor escorre de meus cabelos trançados. Eu torço para que ele não atinja meus olhos e me cegue, enquanto giro a espada entre meus inimigos, dilacerando seus corpos, banhando o campo de sangue. Meus machucados são irrelevantes. Tenho que continuar matando, sem parar. Uma dúzia deles tenta me acertar enquanto manejo a incansável lâmina. Os corpos tombam, eu continuo. Sinto o peso de muitos olhares sobre mim. Quando grito, minha força parece dobrar, fazendo meus inimigos recuarem de medo, como se minha voz pudesse arrebatá-los, jogá-los para longe. Meus braços com as veias saltadas cansam-se, mas não param.

-X-

Assim que sento no chão, ao lado de tantos corpos, finalmente vejo o que me fizeram. Vejo um corte gigantesco em minha perna, vejo minha barriga com linhas de sangue que se esvaem de buracos de estocadas rápidas e grotescas.

Vejo logo que não tenho muito tempo. Os garotos olham-me com cara de espanto. Imelda vem correndo de longe, minha vista embaça, parece que ela nunca vai chegar. Eu fecho os olhos por um instante, pensando no alívio de ter feito o que queria. Ganhamos a guerra. Abro os olhos. Imelda chega, chorando, me abraça, deita minha cabeça sobre seu colo. No mar de sangue que nos envolta. É aqui mesmo que me vou. Sobre os meus troféus, sobre os espólios de guerra. Sobre a grama vermelha. Sobre os campos dos deuses. Sob os deuses. Me recebam.


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Comente!

Em breve: a capa da 7ª edição!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

**Lobo - CEBolso nº 02

Continuando a postagem de contos da 2ª edição da CEBolso, aqui vai o segundo:

Lobo
Alvaro Souza

O whisky puro flamejava garganta abaixo. Espremia por um instante os olhos vermelhos e ardidos na hora de engolir. Ao abri-los novamente, tomava consciência de si e da realidade ao seu redor. Ainda não era o bastante. Ainda podia sentir.

- Me dá mais um – pedia, a voz um rosnado arrastado que já traía a embriaguez.

- Ei, Thom, será que você já não bebeu demais? – o gordo dono do bar tentava, como de costume, encerrar a bebedeira do velho enquanto ele ainda era capaz de caminhar para casa.

- Hã?!... – o homem não entendeu de imediato, parecia surpreso e confuso por falarem com ele - ...não enche não, Paulão, serve logo e não reclama, que é a minha pensão que te sustenta! – esbravejou, depois de uma pausa para se orientar. O velho minguado e raquítico, uma figura inofensiva, agigantava-se sob o efeito da bebida – Põe logo essa merda dessa dose!

Querendo que ele parasse de beber! Um sujeitinho que nunca teve a pólvora negra ou o sangue viscoso nas mãos, que ficou gordo na paz proporcionada por homens de verdade como ele! – ...querendo que eu pare de beber... – pôde-se ouvi-lo balbuciar. Virou o copo tão logo o barman terminou de enchê-lo. Seus cabelos grisalhos e desgrenhados eram sebosos, como se não tomasse banho há dias; a barba acinzentada por fazer dava ao rosto magro e ossudo um aspecto ainda mais macilento. Nunca fora muito alto, e agora parecia ter encolhido, curvado e artrítico. Sentado lá, ganindo resmungos para si mesmo, babando ao virar um copo atrás do outro, estremecendo violentamente após cada golada, Thom era a imagem de um cão em agonia ensandecida.

Não tinha família nem amigos na cidade. Sabiam que ele era um veterano do Exército Integrado, mas pouco mais do que isso. Normalmente, tão logo ficava bêbado, iniciava suas bravatas, histórias confusas e embaralhadas que contava no balcão, para ninguém em particular, das quais todos riam, os devaneios de um velho louco. Pessoa alguma acreditava que ele tivesse feito aquelas coisas. Não davam nada por ele.

Na última semana, no entanto, seu comportamento mudara; andava pelas ruas como um vira-lata neurótico, sobressaltava-se com qualquer barulho, assustava-se quando alguém se aproximava, como se estivesse num transe, num mundo só seu, do qual a realidade vinha tirá-lo momentaneamente, um mundo assombrado e angustiante. A bebida não tinha o mesmo efeito, a embriaguez não vinha mais expansiva e relaxante. Pelo contrário, bebia quieto num canto do balcão, murmurando consigo mesmo e tremendo, o álcool no qual tentava refugiar-se parecendo confiná-lo cada vez mais à companhia dos demônios dos quais queria escapar.

- ENTÃO ATIRA VOCÊ!! – a explosão repentina assustou a meia dúzia de outras pessoas espalhadas pelo bar. Imediatamente olhou à sua volta, surpreendido pela presença delas ali; varreu o recinto com o olhar, como se o observasse pela primeira vez, até que pousou os olhos esbugalhados no copo vazio em sua mão, e já ia estendê-lo para Paulão, quando este perdeu a paciência:

- Já chega!!! Você não vai beber nem mais uma gota, seu velho desgraçado!!! Perturbando o meu bar!!! Vai-te embora, bêbado nojento!!! – e ia levando a garrafa, que estava próxima de onde Thom sentava, de volta para a prateleira.

- NÃO!! EU QUERO MAIS!!! – o velho lançou-se à frente, tentando agarrar o braço gordo por cima do balcão, meio que atirando-se por sobre o móvel – VOCÊ NÃO É NINGUÉM PRA ME IMPEDIR SEU LIXO PARASITA DA RECONSTRUÇÃO!!!! – lutava furiosamente com o homem muitas vezes maior e mais pesado, a saliva voando com os rosnados ameaçadores, batendo os dentes como que ensaiando uma mordida. Um freguês aproximou-se por trás, segurando-o pelo braço, e foi repelido por uma cotovelada no rosto, um acidente no meio da confusão, todos pensaram na hora, mas ainda assim um golpe surpreendentemente forte e que lhe partiu o nariz, lançando-o de bunda ao chão.

O braço recém-libertado tomou a garrafa dos dedos robustos do outro lado do balcão, um movimento rápido e vigoroso, que deixou perplexo o dono do bar. Thom afastou-se de um salto do balcão, aprumou as costas contra a parede, a alguns metros da porta, todo ameaça, preparado para se defender de um segundo ataque, uma fera acuada pronta para a orgia de sangue da luta até a morte. Um taco de alumínio surgiu por detrás do balcão, nas mãos do gigante obeso, que arfava. Os demais clientes, em pé, formavam um semicírculo hesitante, receoso de avançar sobre o velho, não mais tão inofensivo assim.

- Eu já chamei a polícia! – a voz do rapaz vinha alta e desafinada dos fundos do bar; o filho de Paulão, que limpava os banheiros quando a confusão começou, trazia um celular, que agitava na mão a alguns centímetros do rosto. Todos pareceram parar por um instante.

- Pega essa merda dessa garrafa, enfia tua pensão no cú e vai logo embora daqui!!! – berrou seu pai na direção do velho, que rosnava eriçado, dentes à mostra – desaparece e nunca mais volta, seu vagabundo! Se achando tão melhor que os outros porque descascava batata e limpava privada na guerra!!! VAI!!!

BLAM!!! – o taco golpeou violentamente o banco redondo em que Thom estivera sentado, e os homens assistindo puderam ver até a alma do velho estremecer.

- AAAARRRRGGHHHHH – o urro parecia vindo de outra dimensão, reverberou por todo o estabelecimento, violento, desesperado, todos os presentes encolhendo-se diante dele. Os olhos esbugalhados eram aterrorizantes, os dentes amarelados, presas ameaçadoras. Com a garrafa firmemente abraçada junto ao peito, sob o braço direito, tateou com a mão esquerda, enquanto recuava lentamente de costas, até encontrar a maçaneta. Abriu a porta e saiu rapidamente para a calçada, não dando as costas em nenhum momento para os inimigos, que o observavam boquiabertos, sem ação.

Lá fora, o sol do meio da tarde apunhalou seus olhos com uma dor lancinante. A garrafa ainda apertada sob o braço, caminhou dois ou três passos rua abaixo, afastando-se da porta do bar em sentido contrário ao dos carros que passavam. Parou, sem rumo, não sabia aonde ir, não tinha nem certeza quanto ao que acabara de acontecer. Deu meia-volta, mas não saiu do lugar; olhou para o outro lado da rua, mas não reconheceu nada de familiar na cidade em que morava havia anos. A confusão mental intensificara-se com a exaltação de momentos atrás. Apertou os olhos e chacoalhou a cabeça, tentando clareá-la.

- Ei, senhor, fique parado!! – o grito trouxe-o de volta. A viatura acabara de encostar bem atrás de dois carros estacionados junto ao meio-fio, os dois policiais caminhavam cautelosamente em sua direção. Exasperado pela interpelação áspera do guarda, por um instante pareceu apavorado. As mãos tremiam, os olhos piscavam loucamente enquanto olhava, aturdido, ao seu redor. Os homens aproximavam-se devagar. A arma na cintura. A farda azul. Aquela farda não era a sua. Feições ameaçadoras.

- Nós só vamos levá-lo daqui, e o senhor não vai dar trabalho, certo?! – as armas. A farda. Que não era a sua.

O desespero e a agitação deram lugar a uma serenidade estática, como se uma chave em seu cérebro tivesse fechado um circuito há muito em desuso. Tolos. E um par de soldadinhos de merda desses, recém saídos das fraldas, lá seria capaz de neutralizá-lo! Os melhores do mundo já tentaram, teve vontade de dizer, os melhores do mundo! E sobrevivera a todos eles! Todos! Esses bostinhas achavam que o tinham encurralado? Desarmado e sozinho no meio da rua? Deixaria os desgraçadozinhos tentarem!

A coluna ereta parecia ter recobrado a estatura de outrora. Cabeça erguida, respiração compassada, a mão esquerda baixada ao lado do corpo, a direita segurando firme a garrafa. O olhar sinistro oscilava de um soldado para o outro, encarando-os nos olhos, o modo correto de se fazer. Não era mais o animal encurralado em desespero, era o caçador ardiloso, prestes a se abater sobre a presa indefesa e em desvantagem. Toda essa repentina frieza produzia o efeito esperado de intimidar aqueles rapazes, que não compreendiam como um velho bêbado podia fazer o suor gelado brotar de seus poros daquele jeito. Confusão já não mais existia em sua mente, que operava como a máquina perfeitamente azeitada, que o treinamento projetou e a violência teve anos para aperfeiçoar.

A calçada era razoavelmente larga, mas os três veículos enfileirados em frente ao bar transformavam-na em um corredor perfeito para se inverter a vantagem numérica de seus oponentes. Estava alinhado com o pára-choque dianteiro do primeiro carro da fila; o policial que gritara com ele aproximava-se pelo centro da calçada, e já passava da roda traseira do carro do meio. Seu colega seguira alguns metros atrás, parando na linha do pára-choque dianteiro da viatura, só que mais à esquerda de Thom, rente à parede de um edifício. Parecia ter escolhido aquela posição para dar cobertura ao parceiro; sua mão abriu lentamente o fecho do coldre e puxou metade da pistola para fora, mantendo-a naquela posição. Faça o melhor que puder, filho. Aquilo era o máximo que podiam mandar atrás dele?

As jaquetas estufadas denunciavam os coletes à prova de balas. Bom. Como o lobo que prepara a emboscada, Thom recuou sutilmente para a esquerda, e o homem da frente correspondeu da forma esperada, desviando-se um pouco para a sua direita e continuando a se aproximar, seguro de que dera ao companheiro uma linha de tiro limpa. O velho permanecia estático, pareceria resignado. Esperar o momento certo, calcular a distância com precisão, tudo isso fazia parte de suas funções mais primárias. O guarda estava bem próximo agora, percorria os últimos metros; levou a mão direita à algema, pendurada no cinto ao lado da arma, sobre a perna direita.

E fechou-se a armadilha, a alcatéia de um homem só cravando os dentes na garganta de sua vítima, aguardando o jorro morno da vida que se esvairia em vermelho. Thom soltou a garrafa, dando um passo impetuoso com o pé direito em diagonal, rápido como um raio, na direção do inimigo. Antes de o vidro espatifar-se no chão, seus braços, velozes como o bote de uma serpente, atacaram. Os dedos da mão direita golpearam a traquéia do sujeito, deixando-o imediatamente fora de combate; a mão esquerda agarrou o braço direito que pegava a algema e, no tempo que o segundo policial levou para terminar de sacar a arma e puxar o gatilho, já havia recuado trazendo o corpo inerte para junto de si, usando-o como escudo, girando o próprio corpo de modo a encaixar-se no do oficial e escorá-lo, como se este o encoxasse por trás, bem no momento do choque da bala contra o kevlar sob a jaqueta. Ato contínuo, sem interromper seu movimento giratório, levou a mão direita à perna do homem às suas costas, puxando e destravando sua pistola a um só movimento; completou o giro, ajoelhando-se e atirando contra o soldado remanescente antes do mesmo ter tempo de puxar o gatilho de novo, enquanto o primeiro despencava bem ao seu lado. Dois disparos precisos, da maneira como fora ensinado a enfrentar homens de colete. Um na cabeça. Um na virilha.

Ficou de pé. A respiração, não mais tão controlada assim; as mãos, já começando a tremer novamente; os olhos piscando outra vez, a intervalos cada vez menores. Realidade e alucinação mesclavam-se em sua mente, numa dança furiosa que o fez apertar a cabeça com força, usando as duas mãos, a arma ainda na direita. Ao seu redor, o pânico da matança já dava seus clássicos sinais, arrebatando instantaneamente todos que nunca precisaram praticá-la.

Como se arrancado de um devaneio, Thom correu, passando pelo policial baleado e apanhando sua arma, imprimindo a máxima velocidade que suas pernas velhas agüentavam, fugindo desesperadamente da violência que, por tantos anos reprimida, rompera o lacre e vinha uivando inundar sua vida novamente.