terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Edição 09 à venda!

Lembre-se: a revista está à venda nas Livrarias Adeptus dos shoppings Goiabeiras e 3 Américas e na Livraria Janina do Shopping Pantanal. Você também as encontra em algumas bancas da cidade e outros pontos diversos. Confira todos eles clicando AQUI.

Para aqueles que não moram em Cuiabá-MT, é fácil: mande um e-mail para contosextraordinarios@gmail.com solicitando sua edições!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Capa da 9ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

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Notou alguma diferença nesse desenho? Percebeu um terceiro nome na parte de baixo da capa? Poisé, Mauro Thompson, que desenhou a edição 1 e metade da 2, e as respectivas capas, volta à ativa. Fora isso, Alex Leite vem dilapidando as histórias com cada vez mais desenhos, e cada vez melhores. Enfim, esta edição está duca!

Estamos chegando ao fim... Você que vive falando que não tem dinheiro para comprar as revistas, guarde um pedaço desse 13º! Apenas mais uma edição e finalizamos. Se tem gostado dos contos, acompanhe até o fim, muitas surpresas estão a caminho. E, por que não, compre a coleção de presente para alguém que você acha que se interessará. Afinal, é natal! Muito em breve a nova edição estará à venda, continue antenado(a).







Seguem os excertos da contra-capa da 9ª edição:

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"Aqui, sorte não costuma te manter vivo por muito tempo. O que te compra as chances de sonhar em atingir a diminuta expectativa de vida deste emprego, é a sensibilidade de notar quando algo está pra acontecer, a esperteza de nunca ficar no lugar errado na hora errada, e o respeito que você conquista se não demonstrar medo e for seguro de si.
Às vezes, nem isso basta."

A rotina do Presídio de Segurança
Máxima Carrara está prestes a
mudar. Acompanhe Alan, um dos
guardas, num tour revelador por um
dos lugares mais perigosos do
mundo.

sábado, 29 de novembro de 2008

Palhinha do 8º conto

Faz um bom tempo que isso não acontece... Mas nada como a própria história para mostrar do que se trata o conto. Aqui vai um trecho do começo da 8ª edição.

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Balas Perdidas
Fumaça, jipes e torniquetes

CENA 1


Suas asas, seu porte, a angulação perfeita de seu corpo esguio, numa subida graciosa, escalando os degraus de ventos tão abundantes e frescos àquela altura, rumando para as nuvens, para o branco leve - interrompida pela bala torpe e improvável, atravessando seu peito e costas, desviando-lhe do vôo meticulosamente planejado. Seu gracejo se acaba num segundo, seu corpo contorce-se numa queda livre e desastrada, suas penas brancas dançando confusamente ao léu, até que atinge o teto da casa, no centro do caos humano, brutal e mortífero. O baque no cimento perde-se em meio a gritos e tiros e passa despercebido para os homens logo abaixo.

- Puta merda! PUTA MERDA! FUDEU!

- Cala a boca, Solano, PORRA! - grita o sargento Lopez.

São cinco deles. Três soldados rasos, Solano, Jordão e Barreto, um cabo, Silva, e o sargento Lopez. Tudo dera errado, incrivelmente errado.

- Merda! Eu vou matar aquele filho da puta! Nos mandar pra cá, pra morte certa! - continua Lopez, dizendo em outras palavras o que o soldado que mandara calar a boca acabara de falar.

Estavam no meio de uma situação delicada: os valentes soldados de um país longínquo tentando impor a paz por meio da violência, num território pobre e desolado. A guerra civil era uma realidade; as dezenas de clãs locais tentavam tomar o poder que um governo em ruínas não exercia, e no meio do caminho inocentes eram trucidados, pela violência ou pela fome. Ali, na capital, qualquer fagulha tornava-se uma labareda contundente, que deitava facilmente dezenas de vítimas no chão banhado de sangue, a maioria delas inocentes sem ter para onde correr. O exército chegara há meses, e sufocava lentamente enquanto os soldados tombavam sem conseguir livrar a cidade de seus “elementos nocivos”.

- Até agora não sabemos se eles realmente nos mandaram pra cá, sarja - disse Silva.

Estavam refugiados num cubículo de cimento que, a notar pelos colchões e trapos sujos espalhados pelo chão, alguns há pouco chamavam de lar. Uma porta de madeira estropiada e uma janela selada com tábuas eram o que completava a decoração primitiva do quadrado de concreto. Há quinze segundos entraram ali. Não tiveram que esperar muito por companhia.

A porta, à direita dos homens, despedaçou-se de vez com o impacto de novas balas, os pedaços entrecortados de madeira voando e espatifando-se na parede do outro lado. Os cinco, agachados rentes a uma das paredes, com os rifles em punho, apenas esperavam o momento certo.

- Cala a boca, Silva. Aí vem eles - resmungou o sargento.

Os insurgentes não tinham uniformes, proteção ou treinamento adequado; usavam roupas comuns e ficavam muito mais à vontade com enxadas ou martelos do que com armas. Que, a propósito, eram em grande parte velharias, financiadas com as mixarias adquiridas nas pilhagens locais, compradas em remessas de grande quantidade; sobras de outras guerras negociadas por valores baixos. De fato, quantidade era a única vantagem dos clãs locais. Mas não de armas, e sim de homens, de mártires, de suicidas.

O primeiro deles entrou pulando, mas virado para o lado errado; foi jogado para frente no ar e caiu de boca no chão, com mais de vinte balas cravejadas em toda a extensão traseira de seu corpo. Os homens seguintes entraram mirando o lado certo, embora atirassem a esmo. O ambiente foi inundado por uma sinfonia sangrenta e frenética, de dentes cerrados e olhos incandescentes. Caíram conforme entraram, uns sobre os outros, numa carnificina incontrolável. A música só cessou quando o último da fila caiu, metade de seu corpo além da soleira da porta. Os cinco soldados olharam para os lados, checando os companheiros, mal acreditando na pilha de mais de vinte cadáveres amontoados na sua frente.

- CARALHO! Tá todo mundo bem? - perguntou Barreto, o mais próximo da parede rente à porta, e, portanto, o mais protegido - Tô ileso.

- Dois tiros na perna - disse Jordão ao seu lado, segurando o rifle apontado para a porta com uma mão e a perna ferida com a outra.

- Tô tranqüilo - falou Solano, na outra ponta da parede.

- Os desgraçados acertaram meu braço esquer-- Argh! - resmungou o sargento Lopez, puxando o tecido da camisa camuflada pelo buraco feito pela bala, cutucando sem querer o ferimento - Barreto, você e Solano empilhem esses corpos na porta, para cobertura. Com ela aberta somos presa fácil. Vão!

Enquanto os dois, ainda agachados, aproximavam-se dos cadáveres inimigos, começando a empilhá-los, Jordão cutucou Silva, ao seu lado esquerdo. O cabo não se mexeu. Cutucou-o de novo, mais forte, e dessa vez o colega tombou para o lado, inerte.

- Silva?

O tiroteio recomeçou. Assim que os insurgentes viram os soldados tentando empilhar os corpos, barrando a entrada da casa, voltaram a atirar em peso, embora não se aproximassem muito. Barreto e Solano continuaram, apenas tomando mais cuidado, imaginando a infinidade de gente lá fora querendo arrancar-lhes o couro. Cada um pegava numa ponta do corpo, bem rente à parede para que não se tornassem alvos fáceis, e levantavam-no, jogando-o em cima dos outros.

- Vamos, lá, Barreto, vamos fechar essa bosta! - já haviam tampado mais da metade da altura necessária quando uma bala, vinda na diagonal, acertou em cheio a mão esquerda de Solano. Quatro dedos voaram para o chão, encharcados de sangue. Apenas o dedão ficou no lugar. Ele pulou para trás, segurando o pulso da mão ferida com a boa - MEU DEUS! MINHA MÃO!

- Ah, merda! - disse Lopez - Barreto, não vai ter jeito de fazer essa barricada se esses putos não pararem de atirar! Joga uma granada!

- Mas, sargento, e se tiverem inocentes perto? Não devíamos usar elas só em caso de extrema urg--

- Seu bosta! O que cê acha que é isso? Joga, infeliz!

Barreto pegou uma das granadas presas na cintura, soltou o pino e jogou-a por cima dos cadáveres. Os tiros cessaram e eles ouviram os gritos desesperados, na língua local, e, em seguida a explosão.

- Agora vamos acabar com isso - retomou Lopez, soltando o rifle no chão, apoiando-se no braço bom para levantar e pegando o corpo mais próximo - Vamos, Barreto! Tá esperando o quê? Um convite? Ajuda aqui, porra.

Barreto, que continuava agachado ao lado da porta, ajudou o sargento a levantar o corpo. Mesmo com Lopez podendo utilizar uma só mão, eles logo acabaram a barricada, selando a entrada. O calor, que já era excessivo, aumentou mais ainda. Também ficou escuro, mas a luz que entrava pelas frestas das tábuas na janela era o suficiente para iluminar o ambiente. Barreto, agora o único sem ferimentos, começou a arrumar o resto dos cadáveres atrás da pilha, de forma a fortalecê-la. Lopez voltou para a parede e sentou-se ao lado de Silva e Jordão; este desviara sua atenção para Solano, que ainda esperneava do outro lado da pequena casa. O sargento pegou o rifle e pousou-o sobre o colo. Então colocou um dedo na parte superior do pescoço de Silva. Depois, aproximou a orelha de seu nariz. Não sentiu nada.

- O Silva morreu - disse, pesaroso.

- Solano, engole esse choro, homem! Vem aqui, vou fazer um torniquete no teu pulso pra estancar o sangramento - gritou Jordão após as palavras de Lopez, amortecendo seu severo impacto.

Solano levantou-se e em dois passos chegou ao lado do colega, que arrancou um pedaço da camiseta que usava por baixo do uniforme e começou a amarrar em volta de seu pulso.

- Meu Deus... - disse Solano, fazendo careta - Olha a minha mão... Que estrago - Então olhou para o corpo de Silva, para o braço ferido do sargento e para a perna alvejada de Jordão - Não tô querendo ser pessimista, pessoal, mas acho que tamos mortos...

- Cala a boca, Jordão. A gente só tá morto quando tá morto - respondeu Lopez.

Barreto mal terminou de arrumar os corpos, os tiros recomeçaram, agora descompassadamente, acertando toda a extensão da casa.

- Meu Deus - disse ele - por que mandaram a gente pra cá? Estamos no meio do inferno... O rádio pifou de vez? - perguntou, olhando para o sargento, que puxou o aparelho preso na cintura de Silva. Fora alvejado e estava quebrado. Lopez apertou o botão para ver se obtinha alguma resposta, mas a caixinha preta em sua mão não emitiu nenhum som, nada.

- Merda ! - gritou quando jogou o rádio na parede, quebrando-o de vez - GRANDE PEDAÇO DE MERDA DO CARALHO, PORRA!

- Eu não descreveria melhor, senhor - disse Jordão com um meio sorriso na boca.

- E eu não continuaria rindo por muito tempo, Jordão - disse Solano, olhando a janela logo acima deles. Estavam encostados na parede, sob ela - Temos sorte que esses filhos da puta são burros... Essas madeiras não guentariam nem dois segundos se--

Uma rajada de tiros acertou as tábuas, deixando três buracos alinhados. Lopez alcançou Solano pelo pescoço, esbugalhou os olhos e disse, raivosamente:

- Solano, seu maldito desgraçado, ou você cala essa boca imunda ou eu mesmo arranco fora os outros dedos que sobraram, me ouviu? - então o soltou, empurrou-se para trás forçando as pernas no chão, até encostar as costas na parede, levantou o joelho direito e apoiou o rifle ali em cima, mirando a janela - Barreto, recolhe essas armas que tão pelo chão e deixa aqui ao alcance da nossa mão; daqui a pouco acaba a munição. E fica ali, ó, como eu - disse, apontando a parede à sua frente, do outro lado - Nenhum desses filhos da puta vai brincar com a gente. Apareceu, toma chumbo

Barreto rapidamente recolheu o que tinha e jogou-as no chão, distribuindo ao alcance de todos. Jordão terminou o torniquete no pulso de Solano e pegou o rifle e a munição de Silva.

- Certo. Vocês dois cuidam da porta. Essa barricada não vai durar pra sempre - ordenou o sargento.

- Meu Deus - disse Jordão, olhando sua coxa e ignorando as palavras do superior - acho que me acertaram de jeito.

Barreto olhou mais atentamente a perna direita de Jordão, forçando os olhos para enxergar melhor à meia-luz. Só então viu a enorme poça de sangue que a circundava.

- Puta merda! - exclamou ele - Quer que eu dê uma olhada?

- Pra quê, Barreto? Você não entende porra nenhuma disso. Deve ter acertado uma artéria... Olha, o único jeito de eu, e provavelmente vocês, sobrevivermos a essa merda é se vierem nos resgatar rápido, o que acho improvável. Que que cê acha, sarja?

- Todo mundo aqui sabe como funciona, Jordão. Ninguém fica pra trás. Eles virão, cedo ou tarde. Mas virão - concluiu Lopez.

As palavras do sargento foram as últimas ditas em uma pausa de longos minutos. Eles sabiam daquilo. Viriam resgatá-los, de alguma forma. Mas conseguiriam chegar a tempo? Por instantes aquilo ocupou-lhes a mente, num sofrimento latente de imaginar tudo o que poderiam fazer, se saíssem dali com vida.

Então, sem mais nem menos, a cabeça de Jordão despencou sobre o peito.

- Jordão! - gritou Barreto, desesperado, aproximando-se do colega. Solano, ao seu lado, virou-se assustado e levantou sua cabeça. Os dois analisaram-no e em poucos segundos constataram: estava morto. Perdera muito sangue.

- Merda, MERDA! - exclamou Barreto, voltando para a parede - Silva, agora Solano... Daqui a pouco seremos nó--

- Sem choro, soldado! - interrompeu Lopez - Agora somos só nós três. Nós ou eles lá fora. Quando tudo acabar, você vai ter tempo de chorar a morte dos dois.

Barreto engoliu o pesar. Continuaram quietos por mais um minuto. Foi o quanto Solano conseguiu segurar-se.

- Puta merda - disse ele - Tô impressionado com esses idiotas. Quero dizer, são só táb--

Lopez abaixou a arma e disparou. Uma bala passou zunindo pela cabeça de Solano.

- CARALHO, SARJA! - assustou-se ele.

- Soldado, você tem certeza de que não quer calar a boca? - disse o sargento, agora mirando o rifle no meio de seus olhos.


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No mais, confira o espaço que o blog da OCT (Operação Cavalo de Tróia) dedicou ao lançamento da nossa 8ª edição, clicando AQUI!

domingo, 23 de novembro de 2008

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Capa da 8ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

"O primeiro deles entrou pulando, mas virado para o lado errado; foi jogado para frente no ar e caiu de boca no chão, com mais de vinte balas cravejadas em toda a extensão traseira de seu corpo. Os homens seguintes entraram mirando o lado certo, embora atirassem a esmo. O ambiente foi inundado por uma sinfonia sangrenta e frenética, de dentes cerrados e olhos incandescentes. Caíram conforme entraram, uns sobre os outros, numa carnificina incontrolável. A música só cessou quando o último da fila caiu, metade de seu corpo além da soleira da porta."

A Bravo 6 ficou encurralada durante
uma missão. Enquanto os soldados
lutam pela
vida, resistindo a
incontáveis
inimigos, sua salvação
se aproxima.
Ou não?


(extraído da contracapa - edição 8)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

7ª edição à venda!!!

Corra já para comprar a sua!

Saiba aonde clicando AQUI!

sábado, 25 de outubro de 2008

Capa da 7ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

"Saiu inspirando fortemente o ar fresco da manhã. Cumprimentou o vizinho da frente, que também saía para o trabalho, com um aceno de cabeça e um 'bom dia' vigoroso. Desligou o alarme do carro com um aperto no botão do controle acoplado à chave, abriu a porta e ligou o rádio. Deu a ré e saiu calmamente pela rua, aproveitando cada momento, pensando na casa e na família que acabara de deixar para trás. Sua vida era maravilhosa."


Borkman vive a vida dos sonhos:
tem a esposa perfeita, os filhos
perfeitos, a casa perfeita, o emprego
perfeito... Mas algo está errado,
terrivelmente errado.

(extraído da contracapa - edição 7)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

**O Grande Dia de Krentz - CEBolso nº 02

Aqui se encerra o conteúdo da CEBolso nº 02 com um pequeno conto medieval de minha autoria:

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O Grande Dia de Krentz
Ricardo Santos

Ontem ele me disse que seria algo grandioso. Como de costume, sua barba branca tremia enquanto sua boca abria e fechava para expelir as palavras proferidas com tanto ardor. Eu pude sentir, enquanto ouvia, a raiva que permeava suas falas. Eu pude sentir o desejo de vingança que exalava em seu bafo podre de hidromel azedo. Prenunciava as mortes com tanta alegria que não parecia ser um homem que outrora dedicara-se inteiramente a Deus. Se por um lado estava tão contente que não conseguia conter-se, e por isso precisava da ajuda do álcool para digerir suas emoções, eu tremia de medo, pois o dia seguinte seria o dia de minha prova, o dia em que todos saberiam se eu era digno de ostentar o título que conquistara anos atrás, quando a ameaça fora destruída pela lâmina de minha espada.

Assim que o dia raiou hoje, a primeira coisa que fiz foi tomar o leite fresco que Imelda acabara de tirar de nossa vaca, tão magra e desnutrida que pude sentir o leite desencorpado descendo na garganta feito água. Depois fui ao nosso pequeno santuário rezar aos deuses para que nos dessem forças nesse dia tão sombrio.

E agora aqui estou, a caminho do campo de batalha, longe de todos os outros soldados, sem coragem de abrir a boca para dizer uma palavra de consolo aos mais jovens, que vejo me olharem curiosos e admirados, como se minha presença fosse garantia de vitória certa. O peso nas minhas costas é imenso. Tantas vidas esvair-se-ão hoje, e minha vontade é de poder salvar todas, mas sei que as baixas estão inexoravelmente ligadas às guerras. É a lei da natureza.

-X-

O suor escorre de meus cabelos trançados. Eu torço para que ele não atinja meus olhos e me cegue, enquanto giro a espada entre meus inimigos, dilacerando seus corpos, banhando o campo de sangue. Meus machucados são irrelevantes. Tenho que continuar matando, sem parar. Uma dúzia deles tenta me acertar enquanto manejo a incansável lâmina. Os corpos tombam, eu continuo. Sinto o peso de muitos olhares sobre mim. Quando grito, minha força parece dobrar, fazendo meus inimigos recuarem de medo, como se minha voz pudesse arrebatá-los, jogá-los para longe. Meus braços com as veias saltadas cansam-se, mas não param.

-X-

Assim que sento no chão, ao lado de tantos corpos, finalmente vejo o que me fizeram. Vejo um corte gigantesco em minha perna, vejo minha barriga com linhas de sangue que se esvaem de buracos de estocadas rápidas e grotescas.

Vejo logo que não tenho muito tempo. Os garotos olham-me com cara de espanto. Imelda vem correndo de longe, minha vista embaça, parece que ela nunca vai chegar. Eu fecho os olhos por um instante, pensando no alívio de ter feito o que queria. Ganhamos a guerra. Abro os olhos. Imelda chega, chorando, me abraça, deita minha cabeça sobre seu colo. No mar de sangue que nos envolta. É aqui mesmo que me vou. Sobre os meus troféus, sobre os espólios de guerra. Sobre a grama vermelha. Sobre os campos dos deuses. Sob os deuses. Me recebam.


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Em breve: a capa da 7ª edição!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

**Lobo - CEBolso nº 02

Continuando a postagem de contos da 2ª edição da CEBolso, aqui vai o segundo:

Lobo
Alvaro Souza

O whisky puro flamejava garganta abaixo. Espremia por um instante os olhos vermelhos e ardidos na hora de engolir. Ao abri-los novamente, tomava consciência de si e da realidade ao seu redor. Ainda não era o bastante. Ainda podia sentir.

- Me dá mais um – pedia, a voz um rosnado arrastado que já traía a embriaguez.

- Ei, Thom, será que você já não bebeu demais? – o gordo dono do bar tentava, como de costume, encerrar a bebedeira do velho enquanto ele ainda era capaz de caminhar para casa.

- Hã?!... – o homem não entendeu de imediato, parecia surpreso e confuso por falarem com ele - ...não enche não, Paulão, serve logo e não reclama, que é a minha pensão que te sustenta! – esbravejou, depois de uma pausa para se orientar. O velho minguado e raquítico, uma figura inofensiva, agigantava-se sob o efeito da bebida – Põe logo essa merda dessa dose!

Querendo que ele parasse de beber! Um sujeitinho que nunca teve a pólvora negra ou o sangue viscoso nas mãos, que ficou gordo na paz proporcionada por homens de verdade como ele! – ...querendo que eu pare de beber... – pôde-se ouvi-lo balbuciar. Virou o copo tão logo o barman terminou de enchê-lo. Seus cabelos grisalhos e desgrenhados eram sebosos, como se não tomasse banho há dias; a barba acinzentada por fazer dava ao rosto magro e ossudo um aspecto ainda mais macilento. Nunca fora muito alto, e agora parecia ter encolhido, curvado e artrítico. Sentado lá, ganindo resmungos para si mesmo, babando ao virar um copo atrás do outro, estremecendo violentamente após cada golada, Thom era a imagem de um cão em agonia ensandecida.

Não tinha família nem amigos na cidade. Sabiam que ele era um veterano do Exército Integrado, mas pouco mais do que isso. Normalmente, tão logo ficava bêbado, iniciava suas bravatas, histórias confusas e embaralhadas que contava no balcão, para ninguém em particular, das quais todos riam, os devaneios de um velho louco. Pessoa alguma acreditava que ele tivesse feito aquelas coisas. Não davam nada por ele.

Na última semana, no entanto, seu comportamento mudara; andava pelas ruas como um vira-lata neurótico, sobressaltava-se com qualquer barulho, assustava-se quando alguém se aproximava, como se estivesse num transe, num mundo só seu, do qual a realidade vinha tirá-lo momentaneamente, um mundo assombrado e angustiante. A bebida não tinha o mesmo efeito, a embriaguez não vinha mais expansiva e relaxante. Pelo contrário, bebia quieto num canto do balcão, murmurando consigo mesmo e tremendo, o álcool no qual tentava refugiar-se parecendo confiná-lo cada vez mais à companhia dos demônios dos quais queria escapar.

- ENTÃO ATIRA VOCÊ!! – a explosão repentina assustou a meia dúzia de outras pessoas espalhadas pelo bar. Imediatamente olhou à sua volta, surpreendido pela presença delas ali; varreu o recinto com o olhar, como se o observasse pela primeira vez, até que pousou os olhos esbugalhados no copo vazio em sua mão, e já ia estendê-lo para Paulão, quando este perdeu a paciência:

- Já chega!!! Você não vai beber nem mais uma gota, seu velho desgraçado!!! Perturbando o meu bar!!! Vai-te embora, bêbado nojento!!! – e ia levando a garrafa, que estava próxima de onde Thom sentava, de volta para a prateleira.

- NÃO!! EU QUERO MAIS!!! – o velho lançou-se à frente, tentando agarrar o braço gordo por cima do balcão, meio que atirando-se por sobre o móvel – VOCÊ NÃO É NINGUÉM PRA ME IMPEDIR SEU LIXO PARASITA DA RECONSTRUÇÃO!!!! – lutava furiosamente com o homem muitas vezes maior e mais pesado, a saliva voando com os rosnados ameaçadores, batendo os dentes como que ensaiando uma mordida. Um freguês aproximou-se por trás, segurando-o pelo braço, e foi repelido por uma cotovelada no rosto, um acidente no meio da confusão, todos pensaram na hora, mas ainda assim um golpe surpreendentemente forte e que lhe partiu o nariz, lançando-o de bunda ao chão.

O braço recém-libertado tomou a garrafa dos dedos robustos do outro lado do balcão, um movimento rápido e vigoroso, que deixou perplexo o dono do bar. Thom afastou-se de um salto do balcão, aprumou as costas contra a parede, a alguns metros da porta, todo ameaça, preparado para se defender de um segundo ataque, uma fera acuada pronta para a orgia de sangue da luta até a morte. Um taco de alumínio surgiu por detrás do balcão, nas mãos do gigante obeso, que arfava. Os demais clientes, em pé, formavam um semicírculo hesitante, receoso de avançar sobre o velho, não mais tão inofensivo assim.

- Eu já chamei a polícia! – a voz do rapaz vinha alta e desafinada dos fundos do bar; o filho de Paulão, que limpava os banheiros quando a confusão começou, trazia um celular, que agitava na mão a alguns centímetros do rosto. Todos pareceram parar por um instante.

- Pega essa merda dessa garrafa, enfia tua pensão no cú e vai logo embora daqui!!! – berrou seu pai na direção do velho, que rosnava eriçado, dentes à mostra – desaparece e nunca mais volta, seu vagabundo! Se achando tão melhor que os outros porque descascava batata e limpava privada na guerra!!! VAI!!!

BLAM!!! – o taco golpeou violentamente o banco redondo em que Thom estivera sentado, e os homens assistindo puderam ver até a alma do velho estremecer.

- AAAARRRRGGHHHHH – o urro parecia vindo de outra dimensão, reverberou por todo o estabelecimento, violento, desesperado, todos os presentes encolhendo-se diante dele. Os olhos esbugalhados eram aterrorizantes, os dentes amarelados, presas ameaçadoras. Com a garrafa firmemente abraçada junto ao peito, sob o braço direito, tateou com a mão esquerda, enquanto recuava lentamente de costas, até encontrar a maçaneta. Abriu a porta e saiu rapidamente para a calçada, não dando as costas em nenhum momento para os inimigos, que o observavam boquiabertos, sem ação.

Lá fora, o sol do meio da tarde apunhalou seus olhos com uma dor lancinante. A garrafa ainda apertada sob o braço, caminhou dois ou três passos rua abaixo, afastando-se da porta do bar em sentido contrário ao dos carros que passavam. Parou, sem rumo, não sabia aonde ir, não tinha nem certeza quanto ao que acabara de acontecer. Deu meia-volta, mas não saiu do lugar; olhou para o outro lado da rua, mas não reconheceu nada de familiar na cidade em que morava havia anos. A confusão mental intensificara-se com a exaltação de momentos atrás. Apertou os olhos e chacoalhou a cabeça, tentando clareá-la.

- Ei, senhor, fique parado!! – o grito trouxe-o de volta. A viatura acabara de encostar bem atrás de dois carros estacionados junto ao meio-fio, os dois policiais caminhavam cautelosamente em sua direção. Exasperado pela interpelação áspera do guarda, por um instante pareceu apavorado. As mãos tremiam, os olhos piscavam loucamente enquanto olhava, aturdido, ao seu redor. Os homens aproximavam-se devagar. A arma na cintura. A farda azul. Aquela farda não era a sua. Feições ameaçadoras.

- Nós só vamos levá-lo daqui, e o senhor não vai dar trabalho, certo?! – as armas. A farda. Que não era a sua.

O desespero e a agitação deram lugar a uma serenidade estática, como se uma chave em seu cérebro tivesse fechado um circuito há muito em desuso. Tolos. E um par de soldadinhos de merda desses, recém saídos das fraldas, lá seria capaz de neutralizá-lo! Os melhores do mundo já tentaram, teve vontade de dizer, os melhores do mundo! E sobrevivera a todos eles! Todos! Esses bostinhas achavam que o tinham encurralado? Desarmado e sozinho no meio da rua? Deixaria os desgraçadozinhos tentarem!

A coluna ereta parecia ter recobrado a estatura de outrora. Cabeça erguida, respiração compassada, a mão esquerda baixada ao lado do corpo, a direita segurando firme a garrafa. O olhar sinistro oscilava de um soldado para o outro, encarando-os nos olhos, o modo correto de se fazer. Não era mais o animal encurralado em desespero, era o caçador ardiloso, prestes a se abater sobre a presa indefesa e em desvantagem. Toda essa repentina frieza produzia o efeito esperado de intimidar aqueles rapazes, que não compreendiam como um velho bêbado podia fazer o suor gelado brotar de seus poros daquele jeito. Confusão já não mais existia em sua mente, que operava como a máquina perfeitamente azeitada, que o treinamento projetou e a violência teve anos para aperfeiçoar.

A calçada era razoavelmente larga, mas os três veículos enfileirados em frente ao bar transformavam-na em um corredor perfeito para se inverter a vantagem numérica de seus oponentes. Estava alinhado com o pára-choque dianteiro do primeiro carro da fila; o policial que gritara com ele aproximava-se pelo centro da calçada, e já passava da roda traseira do carro do meio. Seu colega seguira alguns metros atrás, parando na linha do pára-choque dianteiro da viatura, só que mais à esquerda de Thom, rente à parede de um edifício. Parecia ter escolhido aquela posição para dar cobertura ao parceiro; sua mão abriu lentamente o fecho do coldre e puxou metade da pistola para fora, mantendo-a naquela posição. Faça o melhor que puder, filho. Aquilo era o máximo que podiam mandar atrás dele?

As jaquetas estufadas denunciavam os coletes à prova de balas. Bom. Como o lobo que prepara a emboscada, Thom recuou sutilmente para a esquerda, e o homem da frente correspondeu da forma esperada, desviando-se um pouco para a sua direita e continuando a se aproximar, seguro de que dera ao companheiro uma linha de tiro limpa. O velho permanecia estático, pareceria resignado. Esperar o momento certo, calcular a distância com precisão, tudo isso fazia parte de suas funções mais primárias. O guarda estava bem próximo agora, percorria os últimos metros; levou a mão direita à algema, pendurada no cinto ao lado da arma, sobre a perna direita.

E fechou-se a armadilha, a alcatéia de um homem só cravando os dentes na garganta de sua vítima, aguardando o jorro morno da vida que se esvairia em vermelho. Thom soltou a garrafa, dando um passo impetuoso com o pé direito em diagonal, rápido como um raio, na direção do inimigo. Antes de o vidro espatifar-se no chão, seus braços, velozes como o bote de uma serpente, atacaram. Os dedos da mão direita golpearam a traquéia do sujeito, deixando-o imediatamente fora de combate; a mão esquerda agarrou o braço direito que pegava a algema e, no tempo que o segundo policial levou para terminar de sacar a arma e puxar o gatilho, já havia recuado trazendo o corpo inerte para junto de si, usando-o como escudo, girando o próprio corpo de modo a encaixar-se no do oficial e escorá-lo, como se este o encoxasse por trás, bem no momento do choque da bala contra o kevlar sob a jaqueta. Ato contínuo, sem interromper seu movimento giratório, levou a mão direita à perna do homem às suas costas, puxando e destravando sua pistola a um só movimento; completou o giro, ajoelhando-se e atirando contra o soldado remanescente antes do mesmo ter tempo de puxar o gatilho de novo, enquanto o primeiro despencava bem ao seu lado. Dois disparos precisos, da maneira como fora ensinado a enfrentar homens de colete. Um na cabeça. Um na virilha.

Ficou de pé. A respiração, não mais tão controlada assim; as mãos, já começando a tremer novamente; os olhos piscando outra vez, a intervalos cada vez menores. Realidade e alucinação mesclavam-se em sua mente, numa dança furiosa que o fez apertar a cabeça com força, usando as duas mãos, a arma ainda na direita. Ao seu redor, o pânico da matança já dava seus clássicos sinais, arrebatando instantaneamente todos que nunca precisaram praticá-la.

Como se arrancado de um devaneio, Thom correu, passando pelo policial baleado e apanhando sua arma, imprimindo a máxima velocidade que suas pernas velhas agüentavam, fugindo desesperadamente da violência que, por tantos anos reprimida, rompera o lacre e vinha uivando inundar sua vida novamente.

domingo, 12 de outubro de 2008

CE em destaque na RDM e no Circuito Mato Grosso!

Vira e mexe conseguimos destaque em alguns veículos de mídia locais, o que é sempre gratificante. Dessa vez, a Contos Extraordinários marcou presença na revista RDM, em sua edição comemorativa de 10 anos (setembro).



Numa matéria sobre a produção literária em Mato Grosso, focada principalmente nas editoras regionais e na luta pela publicação e circulação de obras da nossa terra, o colega Marinaldo Custódio, autor da reportagem, citou algumas das publicações do mercado "alternativo" daqui, incluindo a nossa. Não bastasse a menção honrosa, colocando a CE lado a lado com a Revista Sina de Mário Hashimoto e Estação Leitura de Wander Antunes, na última página da matéria há ainda uma foto prestigiando nossos quatro primeiros números, com uma legenda pra lá de honrosa: "A revista Contos Extraordinários: voz do mercado alternativo"

Confira aqui embaixo (para os que quiserem conferir na própria publicação, esta é a página 150 - clique nas imagens para ampliá-las):





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Também ganhamos destaque, pela segunda vez, na coluna Inclusão Literária, de Clóvis Matos, publicada semanalmente no jornal CircuitoMatoGrosso (esta refere-se à última edição, de 10-16 de outubro), que fez um painel com as capas das 6 edições, completando-o com o pequeno conto "As Teias se Fecham", que já foi publicado na revista Espectador e postado AQUI no blog na íntegra. Confira:







Valeu Marinaldo e Clóvis pelo apoio!

E aí, já adquiriu a 6ª edição?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

**Interlúdio - CEBolso nº 02

A 2ª edição da CEBolso (que você encontra junto da 6ª edição da Contos Extraordinários) traz três contos, dois deles bem pequenos. Postarei todos aqui. A história a seguir é a que abre a (mini) revista:

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Interlúdio
Cristiano Imada

O rádio-relógio pedia silêncio incansavelmente enquanto encarava a escuridão com seu olhar vermelho-sangue de 03:47. Sonolenta, Daniele esticou seu braço direito e desligou o aparelho sem sair da cama. Em seguida, rolou para cima de Alexandre, que roncava baixinho. Repousou a cabeça sobre seu ombro, inspirou profundamente o perfume amadeirado e deslizou as mãos pelo corpo quente e esbelto do companheiro, deliciando-se com carda curva esculpida na carne. Então encaixou Alexandre em si e apertou seu corpo contra o dele. Sentiu-o enrijecer e pulsar dentro de suas entranhas. Sua expressão suavizou, irradiando tranqüilidade.

Deitada sobre ele, Daniele sentia como se estivesse flutuando sobre o mar, embalada pela onda-respiração. O ronco começou a soar cada vez mais como o som das brumas sublimando em contato com a areia, até que ela adormeceu novamente.

-X-

Uma coruja abriu as asas e saltou nas trevas em busca de sua presa. Um peixe encarou seu reflexo na superfície e nadou com todas as suas forças para alcançá-lo. Quando estava prestes a tocar sua imagem, ela desvaneceu-se, e o pequeno peixe mergulhou e rodopiou caoticamente em um mundo difuso, bizarro e sufocante. A gaivota esforçava-se, embora já cansada, para voar cada vez mais longe: apostava uma corrida com a grande fruta de fogo, e esta já havia alcançado o limiar muitas vezes mais. O cachorro uivava uma serenata para o olho prateado, e este paquerava-o de volta. Nua, Daniele dançava, saltava, voava, atravessava nuvens e ilusões. Por fim, aterrissou suavemente em uma clareira, na qual se encontrava Alexandre.

Ele não a reconheceu, e, atônito com a beleza e suavidade da dama, indagou:

- Você é um sonho?

- Não, e você também não é o meu.

- Você me parece familiar, como se já houvesse visto você em um sonho...

- Sonhos são a síntese da loucura reprimida...

Após respondê-lo, Daniele adentrou a mata, cruzando árvores e animais noturnos. Quando cansou de caminhar, deitou-se sobre a relva e ficou a ronronar e absorver, em cada centímetro de seu corpo, o toque sedoso e úmido da grama.

Então o chão começou a tremer, e, em seguida, a girar. Daniele agarrou uma raiz, porém esta desvencilhou-se de sua mão. Ela caiu no céu negro, rumo à miríade de estrelas. Não sentiu medo, não gritou, apenas despencou, solitária.

-X-

Daniele acordou novamente. Os suaves e bruxuleantes raios dourados indicavam o início da alvorada. Mais uma vez ela fora deixada sozinha na cama de um motel por alguém que conhecera na noite anterior. Afundou sua face no travesseiro, esperando que, junto com o sonho, as lembranças desse interlúdio se perdessem em sua memória. Enfim, suspirou e levantou. Tinha de ir trabalhar: era segunda-feira.


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E aí? O que achou? Comente!

sábado, 4 de outubro de 2008

6ª edição à venda e novas alterações nos PVs

Continuando o processo de afunilamento dos pontos de venda, três deles encerram sua participação no projeto:

- Banca Ler & Lazer (na frente do Hospital Santa Helena)

- Banca dos Concursos (praça da Prefeitura)

- Banca Oliveira (Av. Filinto Müller)

No mais, os pontos de venda restantes estão atualizados com a nova edição. Saiba quais são eles clicando AQUI.

Corra para comprar a sua!

Em breve: os contos da CEBolso nº 2!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Capa da 6ª edição e CEBolso nº 2!


(clique na imagem para ampliá-la)

"O álcool já amortecera sua mente, mas torpor algum se equiparava ao de seu coração e espírito, ilesos sob a casca de amargura inatingível que ele guardava a sete chaves dentro de si. Como não conseguia curar a dor, remediava-se com alguns pequenos prazeres da vida, embora eles não fossem nem um pouco suficientes para aplacar sua miséria interior."

Samuel chegou ao fundo do poço;
viver tornou-se um fardo. Após a
mais intensa discussão de sua vida,
decide realizar seu maior sonho.
Nem que tenha que morrer para isso.


(extraído da contracapa - edição 6)

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Este número também traz outra edição do nosso suplemento oficial: a Contos Extraordinários Bolso n.º 2. Além de mais contos dos dois colaboradores da primeira edição, Alvaro e Cristiano, também adicionei um pequeno conto meu. Não lembro quem foi exatamente que perguntou se eu não publicaria alguma coisa medieval. Procurando nos arquivos antigos, achei algo nos moldes necessários, que foi encaixado nesta CEBolso. Bom, aí está: comprando a edição 6 você leva de brinde mais três histórias curtas.



Logo a 6ª edição estará disponível nos pontos de venda. Assim que estiver pronta e distribuída, será anunciado aqui no blog. Até lá!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Contos Extraordinários na revista Espectador

A revista Espectador é uma publicação produzida pela COCCAR (Cooperativa de Comunicação, Cultura e Arte) e patrocinada pela Prefeitura de Cuiabá, com a intenção de mapear a cultura cuiabana. Para tanto, traz matérias, artigos, agenda cultural, textos variados e tirinhas, sempre valorizando os talentos e eventos regionais. Ela é recente (a primeira edição foi lançada no mês passado) e é distribuída em eventos culturais e vários outros pontos da cidade, gratuitamente.


(edição #02 - setembro)

Para esta segunda edição, a equipe entrou em contato comigo solicitando algum texto/conto pequeno para publicação na seção "Laboratório". O que eu tinha, naquelas medidas, era um texto no mínimo curioso, que muito mais que responder algo, suscitava muitas perguntas. Enfim, o texto foi publicado, com uma chamada para o blog da Contos Extraordinários. Confira (clique na imagem para ampliá-la):





Aqui vai o texto na íntegra:
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As Teias se Fecham
por Ricardo Santos

Ele sente a ameaça no ar. É como um animal encurralado, que fareja o perigo aproximando-se, e teme que esse será o ultimo momento de sua vida miserável. Não que ele vá se deixar levar tão facilmente. Afinal, todos nós lutamos pela sobrevivência; é um instinto animal que é nosso por direito, herança de dias mais selvagens.


A porta abre e dá espaço à corrente de vento que ansiava pela liberdade. Com o vento vem o homem. Com o homem vem a arma. Com a arma vem a bala. Com a bala vem o ultimo suspiro, enquanto ela penetra nos cantos mais recônditos de seu cérebro, furando aquilo que milésimos de segundos atrás foi capaz de odiar, amar e arquitetar o que quer que fosse que seu espírito insaciável planejasse. A ambição se dobra, a vontade se esvai, e a natureza dá fim ao ciclo de mais um de seus filhos, enquanto o corpo cai mole no chão, esparramando os braços sobre o carpete agora manchado de vermelho.


O segundo homem limpa sua arma, com um pequeno lenço branco. Depois a joga por cima do corpo já imóvel a sua frente e sai conforme o esperado, conforme sua vida lhe ensinou a agir em qualquer situação: seguro de si.


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Por cima da bancada, ele observa o matador afastando-se, regojizando-se em alegria enquanto vê que tudo que previra ocorre como planejado. Ao pensar nas conseqüências que seu plano acarretará, pelo menos em relação aos seus benefícios pessoais, ele sente uma alegria imensa, parecendo não importar-se com o fato de que para que sua alegria concretize-se, muitos terão que morrer e muitos outros chorarão perdas em vão.


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Os agradecimentos à equipe da revista ficam aqui registrados, em especial à Karina Figueredo, que realizou (de forma extremamente gentil) o contato. A proposta da revista é muito importante, e até essencial (acredito eu) para nos situar do que acontece em nossa cidade, com imparcialidade e prudência. Longa vida à publicação!

Conheça mais sobre a revista Espectador clicando AQUI.

Em breve: a capa da 6ª edição!

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Novo ponto de venda

Agora você também pode encontrar a revista Contos Extraordinários na Livraria Janina, do Shopping Pantanal (clique na imagem para ampliá-la):



Para conferir a lista de ponto de venda na íntegra, clique AQUI.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

5ª edição FINALMENTE (putz!) à venda!!!

É, essa demorou pra caramba. Praticamente um mês, fugindo bastante da proposta original (semanal). O blog esteve parado há mais de duas semanas. Mas estamos de volta, finalmente, e com a 5ª edição à venda (clique AQUI para saber aonde).

O atraso exagerado deveu-se, novamente, à problemas na confecção da revista. Mais especificamente na impressão. Nada que não tenha ocorrido antes. Desde o começo problemas foram o que não faltaram, mas eles foram eventualmente superados. O exército de um homem só às vezes capenga, mas resiste. No final, todos os esforços acabam valendo a pena, quando a revista chega às mãos de ávidos e fiéis leitores (não desmerecendo os novos).

O que foi aprendido nesses últimos dias é que uma semana é praticamente impossível para a produção da revista. Por isso, a partir do próximo número, passamos a periodicidade para quinzenal (esperando fervorosamente que não atrase mais que isso).

Quanto à 5ª edição: é, sem dúvida, a mais caprichada até agora. São 24 páginas (a maior até aqui), com direito a apêndice e splash page (um desenho que ocupa duas páginas em destaque, técnica comum nos quadrinhos). O preço continua o mesmo: módicos R$3,00.

Se você apóia o projeto, aqui vai a sua chance de colaborar: corra para o ponto de venda mais próximo e adquira a sua revista.

Em tempo: TODAS as edições econtram-se à venda em TODOS os pontos de venda.

sábado, 30 de agosto de 2008

Capa da 5ª edição!



É só clicar na imagem para ampliá-la!
E aí, o que achou? Comente!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

*Metamorfose Colossal - CEBolso nº 1

O conto a seguir é da autoria de Cristiano Imada, e constitui, junto de Aurora (post anterior) a primeira edição da Contos Extraordinários Bolso.

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Metamorfose Colossal
Cristiano Imada

- Acorda.

O inesperado tapa joga sua cabeça para a direita em um forte solavanco. Mas não é o susto do tapa, e sim a latência de sua face que faz com que seus pensamentos voltem a surgir, indo e vindo como ondas, confusos e ardentes, tal qual suas memórias. Lentamente você abre o olho, as pálpebras pesam a levantar e as pupilas focam as imagens com dificuldade. Você não sabe onde está, tudo o que pode ver é a silhueta de seu carrasco logo à frente, além dele, escuridão. A única fonte de luz está logo acima de sua cabeça, ofuscando-lhe.

Os sentidos retornam pouco a pouco, embora isso não seja tão bom quanto gostaria. Cada centímetro de seu corpo urra de dor: o tato denuncia ossos quebrados, unhas arrancadas, dentes perdidos, o cu rasgado, milhares de cortes pela pele e queimaduras nos raros locais incólumes. Todas essas horríveis sensações mesclam-se e torturam sua alma, quase arrancado sua humanidade. O olfato sussurra uma mensagem sangrenta, suada e podre à sua narina. A visão borra. Os pensamentos voltam a se dissipar, a ficarem intangíveis... Sua mente lhe diz que “adormecer é melhor”...

- NÃO DESMAIE. NÃO AGORA, SEU INFELIZ.

Um movimento brusco, e então você sente como se tivesse levado um tiro no estômago. O ar fica denso, árduo de ser tragado. O soco não passou de uma cortesia, que fez com que sua atenção se desviasse um pouco do resto de seu corpo.

- Vou te perguntar MAIS uma vez: quem é a porra da sua conexão??? Me responde, filho da puta!

Há quanto tempo está ali? Uma semana parece razoável, mas não é possível. Uma hora? Muito pouco. Pense racionalmente... Tente lembrar-se... Antes de ser algemado naquela cadeira, onde você estava? Em um carro... Encapuzado... Você ouviu a voz de duas pessoas na frente... Estava sentando entre duas pessoas atrás... E antes disso? Pense... Pense... Em casa! Dormindo... Por que te pegaram? O que você fez? Quem é você?

- ... sabe? Diga! Quais as suas provas? Como as consegui...

Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você?

O que você fez?

- Seu merda! Você não sabe com quem está lidan...

-X-

A porta abre. Você corre eufórico: ele chegou. Seu pai entra tropeçando em casa e empurra a porta, que se fecha com um estrondo. Ele cambaleia até o sofá e se joga sobre ele. Você se aproxima cauteloso, e o admira: um guerreiro cansado após uma batalha colossal. As rugas são como cicatrizes de guerra, que adornam seu olhar austero, olhar que torna qualquer conversa desnecessária, pois suplanta qualquer palavra. Você se aproxima mais. Ele ronca feito um leão, um ronco digno de seu porte. Seu bafo é amargo e horripilante, como deve ser o bafo dos dragões.

Ele vira a cabeça e abre os olhos, então o encara. Temeroso por ter despertado o gigante, você salta para trás.

- Cresça... Ic... E se torne um grande ho... Ic... mem... Seja honesto e defenda seus Ic... ideais... Não tenha medo de Ic... ninguém.... Não me decepcione...

Então ele se virou e adormeceu novamente.

-X-

- Passa a bolaaaaaa! – Você grita a plenos pulmões, e para sua felicidade é atendido: a bola vem rasante e precisa para seus pés.

- Irmão! – Seu irmão grita lá de sua casa. Você está com a bola nos pés... o segundo de decisão se prolonga... pode ver o que ele quer depois... o suor escorre pelo seu rosto... marcar o gol agora... O Betinho aproveita sua indecisão e toma a bola, dribla um, dribla dois, dá um chapéu no goleiro e marca mais um pro time adversário.

- PÔÔÔÔÔÔ! – Você sai da rua berrando, atravessa o quintal, e chega à porta de sua casa, onde seu irmão está parado, cabisbaixo e arqueado com as mãos nos joelhos.

Há algo de estranho nele... ele está... chorando?

- O pai... O pai... O pai foi... – Ele faz uma pausa, respira fundo e limpa a coriza de seu nariz – O pai foi morto... – Ele ajoelha-se, como que pedindo desculpas.

- Morto? Ele foi pro céu? Tá com a mamãe? A gente não vai mais ver ele? – Você indaga com os olhos marejados – Porque eles nos abandonaram?

-X-

Você está na casa dos seus tios, ansioso para completar logo seus doze anos. Olha o calendário preso na parede: faltam 5 dias para ganhar um presente. Então você volta para a sala e senta-se em frente à tv. Seu tio logo sairá do banheiro para vocês continuarem a assistir o filme. A imagem está congelada na cena em que o soldado norte-americano levanta a bandeira de seu país. Você admira a bravura daquele soldado. Ele te lembra alguém... Patriota, incorruptível, perseverante, colossal, alguém disposto a dar seu sangue por uma causa maior. Quem era ele mesmo?

-X-

Você está do lado de fora de seu quarto, emburrado. Já tem 13 anos, mas como divide o quarto com seu irmão, tem que seguir as regras que ele impôs, e que você não agüenta mais - uma delas é não poder ficar no quarto todos os dias das 15 às 17 horas.

Debaixo da porta começa a sair aquele cheiro novamente, um cheiro agradável até. Quando perguntou ao seu irmão o que era, ele lhe disse que era incenso e em seguida mandou calar a boca, assim como também o relembrou que não era para contar aos tios que todos os dias os amigos dele iam lá e ficavam trancados no quarto por duas horas ouvindo rock.

Então uma música bonita e misteriosa começou a entoar e preencher o ar, te tranqüilizando e te acalmando...

And it's whispered that soon, if we all called the tune
Then the piper will lead us to reason
And a new day will dawn for those who stand long
And the forest will echo with laughter

-X-

Dezesseis anos e alguns meses de idade e você ainda não arranjou uma namorada. Agora que a escola inteira sabe que seu irmão está preso há quase dois anos por tráfico de drogas, suas chances acabaram por se reduzir a quase zero. Você joga sua mochila no canto do quarto, aliás, o quarto é a única coisa boa que seu irmão lhe deixou.

- Filho... teve uma rebelião... – Você se vira. Seu tio está na porta de seu quarto. – Seu irmão... como posso te dizer?... Ele...

Você não precisou que ele terminasse a frase para começar a chorar.

If there's a bustle in your hedgerow
Don't be alarmed now
It's just the spring clean for the May Queen
Yes there are two paths you can go by
but in the long run
There's still time to change the road you're on
And it makes me wonder…

-X-

As imagens passam rápido, como num filme acelerado. O ingresso no exército, o treinamento exaustivo, a glória de servir ao país, e, então, a decepção de descobrir que “servir ao país” resumia-se a carpir mato. A descoberta da polícia incorruptível: o BOPE - a tentativa de ingressar nela começando pela polícia militar, e a nova decepção: a corrupção da polícia. Sem conseguir completar os dois anos necessários como PM para ingressar no BOPE, você torna-se detetive particular. Outra decepção: seus casos praticamente se resumem a maridos ou esposas desconfiados da integridade de seus parceiros. Algo lhe diz: “A vida passa rápido depois dos 21”. De fato, você mal se lembra de quando começou a investigar políticos corruptos por conta própria...

-X-

Um toque de telefone.

Você acorda. O seu carrasco está falando algo com alguém no celular. A dor é algo distante agora, há serenidade e silêncio em seu espírito: uma metamorfose está quase completa, um gigante está para nascer.

O torturador coloca o celular em seu ouvido direito, e vira a face para o outro lado, com repugnância do cheiro de merda e sangue que seu corpo exala. Uma voz começa a ser ouvida e você a reconhece: é um daqueles que estava investigando.

- Eu ofereci mais do que você merecia...

Você estava investigando um caso de desvio de dinheiro para uma universidade federal. Até tinha conseguido apoio do reitor e outros membros da instituição que queriam o fim da picaretagem.

- Você poderia pegar esse dinheiro, sumir e começar outra vida...

Todos aqueles que te ajudaram acabaram mortos. Frustrado e sem pistas, você resolveu passar para uma tática ainda mais ousada.

- Sorte que sua família inteira já morreu...

Você enviou cartas para as residências dos suspeitos dizendo que tinha provas contra eles, pediu uma quantia exorbitante em dinheiro, e disse que caso fosse morto ou suas exigências não fossem cumpridas, uma pessoa de confiança enviaria cópias das provas para diversos jornalistas, juízes e qualquer outra pessoa que pudesse complicar suas vidas. Porém, eles foram mais espertos: apenas o capturaram, não o mataram ainda.

- ... ou você aceita sua vida como pagamento, ou você e seu amiguinho morrem juntos...

É claro, você não queria dinheiro algum, não possuía ninguém de confiança disposto a arriscar sua vida, e muito menos alguma prova. Tudo o que possuía eram suspeitos, e finalmente um deles revelou-se o verdadeiro autor do crime.

O crápula continua a falar suas besteiras no celular. O carrasco ainda está com a face voltada para o outro lado, tentando respirar um ar menos podre. Você percebe que preso no que sobrou de seu ânus há uma farpa que se soltou da clava que fora utilizada na tortura. Uma vez que as mãos estão algemadas para trás, não é difícil alcançar a farpa com os dedos. Puxá-la e desprendê-la da carne putrefata que agora está entre as nádegas é doloroso, porém agora a dor não passa de uma sensação trivial. Você a introduz no fecho da algema e imita um tossido para disfarçar seu clique.

Você agarra velozmente o braço do torturador e o gira, quebrando-o. Antes que ele possa emitir qualquer som, você puxa seu braço, e agarra sua traquéia, esmagando-a com ódio e vingança. Após alguns segundos segurando-a, ele pára de se debater e morre por sufocamento.

Você desamarra seus pés calmamente e levanta-se, ignorando a dor. Consegue enxergar melhor agora: há uma porta imensa entreaberta mais à frente. Você está em um imenso galpão. Aproxima-se da porta lentamente e espia o lado de fora. Há um homem sentado mais à frente, virado de costas, fumando um cigarro. Uma música toca baixo; provavelmente o homem a está escutando. Você pega um machado encostado na parede do lado de dentro, abre a porta vagarosamente, aproxima-se por trás dele cautelosamente e o degola.

Em seguida olha ao redor. A brisa bate em seu corpo, lembrando-lhe que está nu. “Os outros dois devem ter ido embora, esse deve ser só o motorista do torturador”, você conclui. Revirando o corpo degolado, acha as chaves do carro estacionado próximo à parede do galpão; é do carro que vem o som. A música é familiar: lembra as músicas que seu irmão ouvia enquanto fumava maconha trancado no quarto. Você se deixa embalar por um momento pelos riffs, que vibram na mesma intensidade da sua alma: uma canção de ódio.

Você entra no dodge e liga a ignição. O motor ronca feito o rugido de um dragão, os pneus urram como leões. Você cruza a porteira da fazenda levantando poeira e entra na BR, acelerando a toda, no ritmo da música.

- Eu vou matar todos vocês. – Jura para si mesmo.

I AM IROONN MAAAANNNN!!!!!!!! – a música se torna uma canção de guerra.

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E aí, o que achou do conto? COMENTE!

Em breve: a 5ª edição!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

*Aurora - CEBolso nº1

Esse conto é da autoria de Alvaro Souza (que ocupa nosso estimado cargo de revisor) e foi publicado na 1ª edição da Contos Extraordinários Bolso, um encarte que acompanha a edição 4 da revista principal. Se você não comprou ela ainda, PUTA MERDA, tá esperando o quê???

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Aurora
Alvaro Souza

De olhos fechados, sentia a raiva que se insinuava havia já alguns minutos aumentar; lenta, mas irreprimível. Abriu os olhos, por mais que não o quisesse - abri-los era sacramentar o fato de que ainda estava consciente. Por que ainda estava consciente? Ou, talvez, por que estava consciente? Encarando o teto, num escuro cada vez mais penumbra, viu que a noite dissolvia-se em manhã rápido demais. Era sempre rápido demais.

Toda noite a mesma coisa: demorava a pegar no sono, um sono entrecortado e inquieto, do qual despertava inúmeras vezes sem razão aparente, e que se interrompia totalmente, como que por mágica, sempre antes da hora de levantar. Tentara de tudo, desde exercícios físicos durante o dia, para ver se ficava cansado, a chás, e até alguns remédios. O resultado era sempre o mesmo. Já desistira de conseguir adormecer cedo, abdicara a qualquer pretensão de dormir sem interrupções, nada disso importava mais. O que ainda queria, aquilo de que ainda precisava, era não acordar mais antes da hora.

Fechou os olhos novamente e virou-se para a esquerda, puxando a coberta sobre si. Descobriu os pés, mudou o braço direito de posição e mexeu a cabeça no travesseiro. Virou de bruços. Virou-se outra vez, agora sobre o lado direito. Embolou um pouco da coberta entre os joelhos e abraçou o outro travesseiro. Nas primeiras noites, lamentava-se, de uma forma ainda um tanto despreocupada. Quando ficou certo que um padrão se formava, exasperou-se ao ponto das lágrimas. Agora, sentia apenas raiva. Muita raiva.

Tornou a abrir os olhos, e a voracidade com que o quarto ficara mais claro desde a última olhada inflamou a sua ira. O dia sempre parecia aproximar-se num ritmo enlouquecido, impondo-se mais e mais sobre ele, desdenhosamente, zombando de seus patéticos esforços em arrancar da noite ainda quaisquer 10 minutos de sono.

Esse tempo que passava acordado rolando na cama, logo antes de levantar, eram os piores 30, 40 minutos – às vezes mais de hora – do seu dia. Era o momento de insônia em que estava mais consciente, o tempo de descanso que mais sentia que iria fazer falta ao longo do dia. Mas, mais do que isso, era tempo que ele passava parado sem fazer nada.

E quando ficava parado sem fazer nada, remoía.

Virou para cima e encarou o teto.

Poderia simplesmente levantar-se e arrumar algo com o que se ocupar, mas, em sua cabeça, precisava esperar o despertador tocar. Era mais que um despertador, era um símbolo, levantar depois de seu toque era levantar no horário, dentro da normalidade. Como alguém que nada tem a temer. Como deveria ser.

Fazê-lo antes disso era fugir, reconhecer que era incapaz, fraco demais para encarar tudo o que assaltava sua mente enquanto ansiava pelo despertar do relógio (indelevelmente atrasado em relação ao seu), tudo o de que tinha que se arrepender, tudo o que vinha culpá-lo, tudo o que vinha frustrá-lo.

Já tentara adiantar o despertador. De 6:20 passou a 6:00, e então a 5:40, 5:20. Mas era como se sua mente requisitasse aquele momento para confrontá-lo. Com o tempo encontrara, durante o dia, formas de distrair-se, de ocupar-se, de não pensar, de não encarar. Então sua consciência cobrava-lhe aquele tempo de seu sono para lembrá-lo de que não havia escapatória.

Fechou os olhos com força e virou-se para a parede, encolhendo-se. Sua consciência. Desgraçada! Por que não havia escapatória? Achara um meio de levar os dias com um pouco mais de paz, e ela, então, encontrou um jeito de arruiná-los antes mesmo que começassem. Apertou mais a coberta entre os dedos. Estava cansado de tudo aquilo, cansado da raiva com a qual já se levantava! Por que tinha que lembrar? Por que tinha que encarar? Estava cansado de se sentir culpado, cansado de se sentir frustrado.

Era passado! Não fazia ele agora tudo o que podia? Cerrou os olhos com ainda mais força. Preparou-se para a resposta que, sabia, estava vindo esmurrar-lhe a boca do estômago ainda uma vez mais:

Não.

Fazia tudo o que conseguia, e sua maldição era não conseguir fazer tudo o que podia, era não estar à altura de tudo aquilo de que era capaz, não corresponder a um potencial que...

É HORA DE LEVANTAR – SÃO – 5 HORAS – E – ZERO MINUTO – É HORA DE LEVANTAR – SÃO – 5 HORAS – E – ZERO MINUTO – É HORA DE LEVANTAR - __

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É provável que todas as vezes que publicarmos uma edição da CEBolso, seus textos venham parar aqui no blog, na íntegra, para apreciação geral.

Por isso fica registrado o pedido de comentários a respeito da obra, que podem ser feitos aqui no próprio blog - afinal, os autores estão sempre esperando algum tipo de reação, seja ela qual for. Gostou? Detestou? Curtiu pra caramba? Quase dormiu lendo? Deixe suas impressões aqui! Comente! Para os que não sabem como, é fácil: clique na palavra COMENTÁRIOS logo no fim deste post (não há necessidade de se identificar; caso prefira, escolha a opção anônimo).

Logo postarei o outro conto da CEBolso nº 1: Metamorfose Colossal, de Cristiano Imada.

Aguarde!

Em breve: a 5ª edição!