quinta-feira, 9 de outubro de 2008

**Interlúdio - CEBolso nº 02

A 2ª edição da CEBolso (que você encontra junto da 6ª edição da Contos Extraordinários) traz três contos, dois deles bem pequenos. Postarei todos aqui. A história a seguir é a que abre a (mini) revista:

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Interlúdio
Cristiano Imada

O rádio-relógio pedia silêncio incansavelmente enquanto encarava a escuridão com seu olhar vermelho-sangue de 03:47. Sonolenta, Daniele esticou seu braço direito e desligou o aparelho sem sair da cama. Em seguida, rolou para cima de Alexandre, que roncava baixinho. Repousou a cabeça sobre seu ombro, inspirou profundamente o perfume amadeirado e deslizou as mãos pelo corpo quente e esbelto do companheiro, deliciando-se com carda curva esculpida na carne. Então encaixou Alexandre em si e apertou seu corpo contra o dele. Sentiu-o enrijecer e pulsar dentro de suas entranhas. Sua expressão suavizou, irradiando tranqüilidade.

Deitada sobre ele, Daniele sentia como se estivesse flutuando sobre o mar, embalada pela onda-respiração. O ronco começou a soar cada vez mais como o som das brumas sublimando em contato com a areia, até que ela adormeceu novamente.

-X-

Uma coruja abriu as asas e saltou nas trevas em busca de sua presa. Um peixe encarou seu reflexo na superfície e nadou com todas as suas forças para alcançá-lo. Quando estava prestes a tocar sua imagem, ela desvaneceu-se, e o pequeno peixe mergulhou e rodopiou caoticamente em um mundo difuso, bizarro e sufocante. A gaivota esforçava-se, embora já cansada, para voar cada vez mais longe: apostava uma corrida com a grande fruta de fogo, e esta já havia alcançado o limiar muitas vezes mais. O cachorro uivava uma serenata para o olho prateado, e este paquerava-o de volta. Nua, Daniele dançava, saltava, voava, atravessava nuvens e ilusões. Por fim, aterrissou suavemente em uma clareira, na qual se encontrava Alexandre.

Ele não a reconheceu, e, atônito com a beleza e suavidade da dama, indagou:

- Você é um sonho?

- Não, e você também não é o meu.

- Você me parece familiar, como se já houvesse visto você em um sonho...

- Sonhos são a síntese da loucura reprimida...

Após respondê-lo, Daniele adentrou a mata, cruzando árvores e animais noturnos. Quando cansou de caminhar, deitou-se sobre a relva e ficou a ronronar e absorver, em cada centímetro de seu corpo, o toque sedoso e úmido da grama.

Então o chão começou a tremer, e, em seguida, a girar. Daniele agarrou uma raiz, porém esta desvencilhou-se de sua mão. Ela caiu no céu negro, rumo à miríade de estrelas. Não sentiu medo, não gritou, apenas despencou, solitária.

-X-

Daniele acordou novamente. Os suaves e bruxuleantes raios dourados indicavam o início da alvorada. Mais uma vez ela fora deixada sozinha na cama de um motel por alguém que conhecera na noite anterior. Afundou sua face no travesseiro, esperando que, junto com o sonho, as lembranças desse interlúdio se perdessem em sua memória. Enfim, suspirou e levantou. Tinha de ir trabalhar: era segunda-feira.


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2 comentários:

celso barreto disse...

Drogas+sexo+rock'n roll= ressaca moral.


muito bom imada, gostei da escrita, gostei das imagens que vi.

abraço.

mab disse...

Estou muito feliz com a melhora cada vez maior da sua qualidade literaria. Grande abraço