segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A história por trás das histórias

Este texto foi publicado no final da edição 10, a título de curiosidade. É um apanhado que fiz sobre todo o processo de criação da revista, e um pouco além disso. É meio grande pro que se costuma ver por aqui, mas pra quem acompanha o projeto, tem interesse ou vontade de fazer algo semelhante, vale a pena. Segue ele, na íntegra:

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Considerações finais ou

A franca história de tudo isso ou

Zé, desce mais uma ou

A história por trás das histórias


Entre uma batida natural e um açaí na tigela, entre buzinadas de motoristas abusados e desaforos de pedestres mal-criados na rua em frente, entre clientes pechincheiros, carros de som, mendigos pedantes expulsos a grito, telefonemas inesperados e resmungos de toda sorte: foi no meio de tudo isso que nasceu a Contos Extraordinários.

O referido lugar é o estabelecimento comercial de Mauro Thompson (que, ao contrário do que minhas descrições parecem denotar, é um lugar bastante agradável), no centro da cidade de Cuiabá. É onde gastamos saliva por anos a fio discutindo uma infinita quantidade de coisas; a maior parte delas os produtos culturais que tanto nos faziam (e fazem) a cabeça: filmes, seriados, games, quadrinhos e literatura.

Entre um e outro argumento sempre sobrava espaço para conjecturas; estávamos de tempos em tempos criando e idealizando vários projetos, tanto individualmente quanto em conjunto. Eu sempre escrevera e Mauro sempre desenhara, e como gostávamos de criar, não apenas reproduzir, era um caminho óbvio. Alguns até mesmo chegaram a começar (como algumas pretensas HQs), mas nunca saíram realmente do papel.

Depois de algumas experiências na faculdade de jornalismo (que cursava na época, início de 2008), estava pensando seriamente em publicar alguma coisa de minha autoria. Compartilhei com Mauro a idéia e logo estávamos visualizando algo muito maior: uma editora alternativa. Descontentes com o pouco espaço e a quase inexistente publicação local (impressa) de material alternativo, e sabendo que esse tipo de coisa era produzida (como nós mesmos podíamos provar), a idéia era que começássemos fazendo alguma coisa nossa, testando o mercado, e depois evoluir (se desse resultado), lançando material de terceiros. Nisso entraria tudo: quadrinhos, poesia e prosa (literatura em geral), jornalismo (principalmente gonzo e investigativo), ilustrações, críticas, ensaios, charges, etc.

Então decidimos: começaríamos com uma revista, um magazine, que abarcaria tudo aquilo que gostaríamos de publicar ou ver publicado, servindo de vitrine para tudo que viria no futuro. Criamos pautas, esboços de roteiros e diagramação, idéias para capas, entre outras coisas. Mas, novamente, nunca saiu do papel.

Nessa época chegamos a idealizar o formato, mas não fomos muito longe. Precisaríamos de dinheiro, gráfica, distribuição, propaganda. E isso visando o público diminuto de um país que não tem o costume de ler, numa cidade com menos costume ainda. Nos tocamos de que não seria fácil.

Passei uns dois meses amargurando a idéia. Lentamente, ela começou a desfalecer; a editora ficou para trás, e uma pequena seção do que seria nossa revista começou a tomar conta de minha mente de maneira febril: os contos. Por que não lançar uma revista de contos? Parecia uma boa idéia. Poderia ser algo com periodicidade definida, com vários contos independentes... Mas baseados em quê?

A resposta veio em seguida: interligações. Cada história teria pontos de interligação. Dividiria-as em duas partes, ou “cenas”, que se completariam, como começo e fim (ou fim e começo), duas versões sobre o mesmo acontecimento, dois núcleos de personagens narrando a mesma história ou histórias compartilhadas, etc. Não importava muito o assunto, o importante era seguir essa linha de raciocínio: seria a característica principal.

Tive a idéia geral do primeiro conto e o dividi em pequenos tópicos. Com a mente a mil, fui até a loja do Mauro e começamos a trocar idéias. Ele ficou claramente empolgado, e ali mesmo começamos a jogar conceitos que se tornariam a espinha da segunda e terceira histórias. Mas antes de prosseguir, tínhamos que passar novamente pelo formato, estudando formas viáveis de publicar.

Citei vários exemplos de publicações daqui e de fora. E ficamos pasmos ao perceber que TUDO (pelo menos o que vimos) fora publicado com incentivo privado ou público (este a estarrecedora maioria). Não havia nada local nesses moldes que aparentemente se sustentasse de suas próprias vendas ou publicidade. Não queríamos aquilo: ser mais um na fila esperando dinheiro de alguém ou algo para só assim começar a publicar (não querendo com isso desmerecer os que assim fizeram - ainda podemos trilhar o mesmo caminho algum dia). Em parte para não ter amarras de qualquer tipo, não tendo que responder a ninguém, e em parte para provar que conseguiríamos fazer sozinhos.

Seria infinitamente mais fácil usar as ferramentas da Internet, como muitos já fazem, mas, saudosistas que somos, queríamos o impresso, o tradicional, o desafio do consumidor cara a cara com o produto (não obstante, sempre tivemos consciência do poderio de uma ferramenta virtual, tanto que o blog acabou sendo criado antes mesmo do lançamento da revista).

Então Mauro lançou a grande cartada: “não precisamos de muita coisa. Podemos nos basear nos pulps, que eram feitos com o material mais barato possível”. Sim, era verdade. Nunca faria frente a um livro convencional, mas esse não era o objetivo. Fizemos as contas e logo vimos que poderia dar certo: papel A4 normal e xerox. A capa teria que ser impressa e colorida (o que acabaria sendo a parte mais cara), para chamar a atenção, ou realmente não venderia nada (no fim, conseguimos achar alguém que fez por um preço bem menor que o de mercado). Felizmente, tínhamos o pouco dinheiro necessário para começar.

Depois de tudo isso, teríamos que manufaturar as revistas (separar, dobrar e grampear) e ainda selá-las em plásticos protetores, já que sabíamos que não seriam lá muito resistentes. O invólucro simples justificaria um preço baixo (considerando-se que não seria produzida em larga escala, tornando os custos bem maiores). E estaria então pronta para ser vendida. Mas o grande problema se avizinhava: vender onde?

Esquadrinhamos as bancas e livrarias num pedaço de papel, e começamos a escolher. Alguns conhecidos (e o próprio Mauro) tinham estabelecimentos que poderiam servir também (por mais que não tivessem nada a ver com esse tipo de produto). O plano torto estava traçado; agora faltava meter a mão na massa.

No mesmo dia, à noite, iria à casa do Mauro para terminar de conceituar as primeiras edições: queria ter em mente pelo menos dez delas. Lá fizemos a mesma brincadeira de jogar conceitos e adicionar detalhes. Criamos o suficiente para nove edições e, não sei em que altura, a idéia de interligação já tinha evoluído para interligar também todas as histórias, culminando com algum tipo de clímax na décima (que se tornaria eventualmente a última) edição.

Em casa, pacientemente diluí os conceitos em tramas mais ou menos delineadas, criei os personagens e espalhei várias pontas soltas. Ao fim das nove primeiras, voltei atrás, adicionando mais aberturas e começando a costurá-las. No fim, esses detalhes acabaram tomando forma meio que independentemente e transformaram-se na última história. Tudo estava anotado e organizado, com direito a uma minuciosa linha temporal, do início ao fim (embora tenha fugido dessas propostas iniciais várias vezes) quando sentei para escrever a primeira história; isso acabou sendo uma mão na roda, como percebi depois.

Desde os primeiros desenhos, passando pela diagramação e manufatura, até a distribuição, tudo foi feito sem o mínimo conhecimento de causa. As negociações estabelecidas com os primeiros pontos de venda foram na maioria satisfatórias (algumas terminaram de forma desagradável). O blog para acompanhamento do projeto já estava criado e abastecido, mesmo que minimamente. Pronto. Estávamos (capengamente) no mercado.

A intenção inicial de publicação semanal (e depois quinzenal) revelou-se impossível na prática. Eu já me dedicava de corpo e alma ao projeto na época; tornou-se de vez meu trabalho. E nem assim conseguia me adequar ao ritmo pretendido. Mauro, por sua vez, tinha inúmeras obrigações com a loja, entre outras coisas. O lançamento da segunda edição demorou tanto por causa dos desenhos que acabei tendo que apelar para outro companheiro: Alex Leite.

Sua dedicação desde o início foi admirável; para se ter idéia, todos os desenhos de sua edição de estréia foram realizados em um único dia (devido à minha pressa), durante suas férias na cidade. E seu nome nem sequer constou na capa (que já estava pronta há algum tempo, o que foi muito injusto; mas corrigido na segunda tiragem da revista). Da terceira à nona edição, tudo foi realizado via Internet, pois ele residia em Campo Grande nesse período, a 700 quilômetros de distância.

Mais ou menos na mesma época, outro grande amigo adentraria o time, numa coincidente conversa franca e crítica a respeito da primeira edição: Alvaro Souza, outro aspirante a escritor e um craque de gramática, cujos apontamentos e correções aos meus escritos acabaram elevando incomparavelmente a qualidade da publicação.

Infelizmente, a partir do terceiro número, Mauro, o co-idealizador do projeto teve que desistir do posto de desenhista, devido à sua extenuante carga de trabalho. Mas as revistas continuaram, evoluindo sempre que necessário (por exemplo, a partir desse número todas foram impressas, e não xerocadas).

Eu cuidava da manufatura das revistas e da distribuição. Com esse revés, acabei encarregado também da diagramação e da construção da capa, além do texto.

Com os dois novos parceiros continuei a escrever e publicar. Vale apontar que desde a entrada de ambos, tentei manter as coisas da forma mais profissional possível, revertendo-lhes parte do lucro e material (que sempre somou uma quantia ínfima, muito inferior ao que mereciam). Felizmente, eles abraçaram o projeto com tanto empenho e dedicação, que acabaram fazendo mais pela pura e simples paixão de contar estas histórias do que visando qualquer ganho.

Seguimos em frente, confiantes, embora sempre com atrasos no cronograma. Algum destaque em jornais, blogs e revistas nos deram certa visibilidade. Montando banca em alguns eventos, constatei pessoalmente que muitos estranhos se interessavam. Com o tempo, percebi que a revista tinha finalmente se libertado do círculo de conhecidos que rodeava todos os envolvidos em sua produção; e foi provavelmente isso que me deixou mais orgulhoso. Porque, como idealizara (criar um produto alternativo para o público local), as pretensões iniciais estavam sendo correspondidas. E o melhor: as pessoas pareciam gostar do que liam/viam.

Consegui, lá pelos idos da quinta edição, terminar de trazer toda a produção para dentro de casa (algo que vinha almejando muito há um bom tempo), munindo-me finalmente de todo o material necessário para publicar sozinho a revista, com boa qualidade. A partir daí as coisas ficaram mais fáceis, já que finalmente tinha o know-how necessário. Olhando para trás, vejo quantos erros poderiam ter sido facilmente evitados se tivesse então a experiência que tenho hoje (mas errando é, infelizmente, o único jeito de aprender). Incluo aí principalmente o stress na produção da terceira, quarta e quinta edição, numa reviravolta desumana (e financeiramente suicida) em cima de impressoras e tintas, que quase me fizeram desistir de tudo.

Enquanto isso, eu e Mauro continuamos mantendo contato e discutindo sobre a revista. Felizmente ele conseguiu arranjar algum tempo para voltar a ilustrá-la, fazendo a capa e um desenho interno da nona edição, e a capa do último número.

Vale lembrar também do suplemento que acompanhou os números 4 e 6, as Contos Extraordinários Bolso, resquícios daquela vontade editorial de publicar material de terceiros, que foram, inclusive, muito bem recebidas.

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A última edição é finalmente lançada, praticamente oito meses depois da primeira; fica claro o atraso que decorreu de nossas previsões semanais ou quinzenais de lançamento. Mas, independente dos percalços, finalizamos o projeto com dez edições, como prometido no início. Não consigo descrever em palavras o orgulho de ver o projeto encerrado da forma que foi concebido.

Espero que mais iniciativas como essa surjam com o tempo, oferecendo algo de diferente e inovador ao público; e falo isso como leitor, não como autor. Que todos que anseiam por fazer algo semelhante (e podem) saiam de suas tocas e o façam, bradem ao mundo suas histórias e devaneios. A Contos Extraordinários é uma prova cabal de que sim, isso pode ser feito.

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Por último, costumo dizer que estas histórias são uma grande homenagem a alguns clichês de vários gêneros cinematográficos, que sempre me encantaram muito, não importa quantas vezes revisitados.

Fica aqui a dedicatória a todos aqueles que inspiraram, criaram e participaram destas obras.


Ricardo Santos - fevereiro de 2009


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Em breve: making of e outros extras

Um comentário:

Maíra Matos disse...

Me sinto feliz por ter acompanhado todo seu empenho para que esse projeto seguisse até o final(?).
Você é a maior prova pra mim de esforço e força de vontade.

O trabalho ficou muito bom, tudo muito bem pensado e projetado, não esquecendo dos mínimos detalhes. Se mostrou capaz mesmo, dando o melhor de si.

Parabéns mais uma vez.
Beijos!