sábado, 29 de novembro de 2008

Palhinha do 8º conto

Faz um bom tempo que isso não acontece... Mas nada como a própria história para mostrar do que se trata o conto. Aqui vai um trecho do começo da 8ª edição.

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Balas Perdidas
Fumaça, jipes e torniquetes

CENA 1


Suas asas, seu porte, a angulação perfeita de seu corpo esguio, numa subida graciosa, escalando os degraus de ventos tão abundantes e frescos àquela altura, rumando para as nuvens, para o branco leve - interrompida pela bala torpe e improvável, atravessando seu peito e costas, desviando-lhe do vôo meticulosamente planejado. Seu gracejo se acaba num segundo, seu corpo contorce-se numa queda livre e desastrada, suas penas brancas dançando confusamente ao léu, até que atinge o teto da casa, no centro do caos humano, brutal e mortífero. O baque no cimento perde-se em meio a gritos e tiros e passa despercebido para os homens logo abaixo.

- Puta merda! PUTA MERDA! FUDEU!

- Cala a boca, Solano, PORRA! - grita o sargento Lopez.

São cinco deles. Três soldados rasos, Solano, Jordão e Barreto, um cabo, Silva, e o sargento Lopez. Tudo dera errado, incrivelmente errado.

- Merda! Eu vou matar aquele filho da puta! Nos mandar pra cá, pra morte certa! - continua Lopez, dizendo em outras palavras o que o soldado que mandara calar a boca acabara de falar.

Estavam no meio de uma situação delicada: os valentes soldados de um país longínquo tentando impor a paz por meio da violência, num território pobre e desolado. A guerra civil era uma realidade; as dezenas de clãs locais tentavam tomar o poder que um governo em ruínas não exercia, e no meio do caminho inocentes eram trucidados, pela violência ou pela fome. Ali, na capital, qualquer fagulha tornava-se uma labareda contundente, que deitava facilmente dezenas de vítimas no chão banhado de sangue, a maioria delas inocentes sem ter para onde correr. O exército chegara há meses, e sufocava lentamente enquanto os soldados tombavam sem conseguir livrar a cidade de seus “elementos nocivos”.

- Até agora não sabemos se eles realmente nos mandaram pra cá, sarja - disse Silva.

Estavam refugiados num cubículo de cimento que, a notar pelos colchões e trapos sujos espalhados pelo chão, alguns há pouco chamavam de lar. Uma porta de madeira estropiada e uma janela selada com tábuas eram o que completava a decoração primitiva do quadrado de concreto. Há quinze segundos entraram ali. Não tiveram que esperar muito por companhia.

A porta, à direita dos homens, despedaçou-se de vez com o impacto de novas balas, os pedaços entrecortados de madeira voando e espatifando-se na parede do outro lado. Os cinco, agachados rentes a uma das paredes, com os rifles em punho, apenas esperavam o momento certo.

- Cala a boca, Silva. Aí vem eles - resmungou o sargento.

Os insurgentes não tinham uniformes, proteção ou treinamento adequado; usavam roupas comuns e ficavam muito mais à vontade com enxadas ou martelos do que com armas. Que, a propósito, eram em grande parte velharias, financiadas com as mixarias adquiridas nas pilhagens locais, compradas em remessas de grande quantidade; sobras de outras guerras negociadas por valores baixos. De fato, quantidade era a única vantagem dos clãs locais. Mas não de armas, e sim de homens, de mártires, de suicidas.

O primeiro deles entrou pulando, mas virado para o lado errado; foi jogado para frente no ar e caiu de boca no chão, com mais de vinte balas cravejadas em toda a extensão traseira de seu corpo. Os homens seguintes entraram mirando o lado certo, embora atirassem a esmo. O ambiente foi inundado por uma sinfonia sangrenta e frenética, de dentes cerrados e olhos incandescentes. Caíram conforme entraram, uns sobre os outros, numa carnificina incontrolável. A música só cessou quando o último da fila caiu, metade de seu corpo além da soleira da porta. Os cinco soldados olharam para os lados, checando os companheiros, mal acreditando na pilha de mais de vinte cadáveres amontoados na sua frente.

- CARALHO! Tá todo mundo bem? - perguntou Barreto, o mais próximo da parede rente à porta, e, portanto, o mais protegido - Tô ileso.

- Dois tiros na perna - disse Jordão ao seu lado, segurando o rifle apontado para a porta com uma mão e a perna ferida com a outra.

- Tô tranqüilo - falou Solano, na outra ponta da parede.

- Os desgraçados acertaram meu braço esquer-- Argh! - resmungou o sargento Lopez, puxando o tecido da camisa camuflada pelo buraco feito pela bala, cutucando sem querer o ferimento - Barreto, você e Solano empilhem esses corpos na porta, para cobertura. Com ela aberta somos presa fácil. Vão!

Enquanto os dois, ainda agachados, aproximavam-se dos cadáveres inimigos, começando a empilhá-los, Jordão cutucou Silva, ao seu lado esquerdo. O cabo não se mexeu. Cutucou-o de novo, mais forte, e dessa vez o colega tombou para o lado, inerte.

- Silva?

O tiroteio recomeçou. Assim que os insurgentes viram os soldados tentando empilhar os corpos, barrando a entrada da casa, voltaram a atirar em peso, embora não se aproximassem muito. Barreto e Solano continuaram, apenas tomando mais cuidado, imaginando a infinidade de gente lá fora querendo arrancar-lhes o couro. Cada um pegava numa ponta do corpo, bem rente à parede para que não se tornassem alvos fáceis, e levantavam-no, jogando-o em cima dos outros.

- Vamos, lá, Barreto, vamos fechar essa bosta! - já haviam tampado mais da metade da altura necessária quando uma bala, vinda na diagonal, acertou em cheio a mão esquerda de Solano. Quatro dedos voaram para o chão, encharcados de sangue. Apenas o dedão ficou no lugar. Ele pulou para trás, segurando o pulso da mão ferida com a boa - MEU DEUS! MINHA MÃO!

- Ah, merda! - disse Lopez - Barreto, não vai ter jeito de fazer essa barricada se esses putos não pararem de atirar! Joga uma granada!

- Mas, sargento, e se tiverem inocentes perto? Não devíamos usar elas só em caso de extrema urg--

- Seu bosta! O que cê acha que é isso? Joga, infeliz!

Barreto pegou uma das granadas presas na cintura, soltou o pino e jogou-a por cima dos cadáveres. Os tiros cessaram e eles ouviram os gritos desesperados, na língua local, e, em seguida a explosão.

- Agora vamos acabar com isso - retomou Lopez, soltando o rifle no chão, apoiando-se no braço bom para levantar e pegando o corpo mais próximo - Vamos, Barreto! Tá esperando o quê? Um convite? Ajuda aqui, porra.

Barreto, que continuava agachado ao lado da porta, ajudou o sargento a levantar o corpo. Mesmo com Lopez podendo utilizar uma só mão, eles logo acabaram a barricada, selando a entrada. O calor, que já era excessivo, aumentou mais ainda. Também ficou escuro, mas a luz que entrava pelas frestas das tábuas na janela era o suficiente para iluminar o ambiente. Barreto, agora o único sem ferimentos, começou a arrumar o resto dos cadáveres atrás da pilha, de forma a fortalecê-la. Lopez voltou para a parede e sentou-se ao lado de Silva e Jordão; este desviara sua atenção para Solano, que ainda esperneava do outro lado da pequena casa. O sargento pegou o rifle e pousou-o sobre o colo. Então colocou um dedo na parte superior do pescoço de Silva. Depois, aproximou a orelha de seu nariz. Não sentiu nada.

- O Silva morreu - disse, pesaroso.

- Solano, engole esse choro, homem! Vem aqui, vou fazer um torniquete no teu pulso pra estancar o sangramento - gritou Jordão após as palavras de Lopez, amortecendo seu severo impacto.

Solano levantou-se e em dois passos chegou ao lado do colega, que arrancou um pedaço da camiseta que usava por baixo do uniforme e começou a amarrar em volta de seu pulso.

- Meu Deus... - disse Solano, fazendo careta - Olha a minha mão... Que estrago - Então olhou para o corpo de Silva, para o braço ferido do sargento e para a perna alvejada de Jordão - Não tô querendo ser pessimista, pessoal, mas acho que tamos mortos...

- Cala a boca, Jordão. A gente só tá morto quando tá morto - respondeu Lopez.

Barreto mal terminou de arrumar os corpos, os tiros recomeçaram, agora descompassadamente, acertando toda a extensão da casa.

- Meu Deus - disse ele - por que mandaram a gente pra cá? Estamos no meio do inferno... O rádio pifou de vez? - perguntou, olhando para o sargento, que puxou o aparelho preso na cintura de Silva. Fora alvejado e estava quebrado. Lopez apertou o botão para ver se obtinha alguma resposta, mas a caixinha preta em sua mão não emitiu nenhum som, nada.

- Merda ! - gritou quando jogou o rádio na parede, quebrando-o de vez - GRANDE PEDAÇO DE MERDA DO CARALHO, PORRA!

- Eu não descreveria melhor, senhor - disse Jordão com um meio sorriso na boca.

- E eu não continuaria rindo por muito tempo, Jordão - disse Solano, olhando a janela logo acima deles. Estavam encostados na parede, sob ela - Temos sorte que esses filhos da puta são burros... Essas madeiras não guentariam nem dois segundos se--

Uma rajada de tiros acertou as tábuas, deixando três buracos alinhados. Lopez alcançou Solano pelo pescoço, esbugalhou os olhos e disse, raivosamente:

- Solano, seu maldito desgraçado, ou você cala essa boca imunda ou eu mesmo arranco fora os outros dedos que sobraram, me ouviu? - então o soltou, empurrou-se para trás forçando as pernas no chão, até encostar as costas na parede, levantou o joelho direito e apoiou o rifle ali em cima, mirando a janela - Barreto, recolhe essas armas que tão pelo chão e deixa aqui ao alcance da nossa mão; daqui a pouco acaba a munição. E fica ali, ó, como eu - disse, apontando a parede à sua frente, do outro lado - Nenhum desses filhos da puta vai brincar com a gente. Apareceu, toma chumbo

Barreto rapidamente recolheu o que tinha e jogou-as no chão, distribuindo ao alcance de todos. Jordão terminou o torniquete no pulso de Solano e pegou o rifle e a munição de Silva.

- Certo. Vocês dois cuidam da porta. Essa barricada não vai durar pra sempre - ordenou o sargento.

- Meu Deus - disse Jordão, olhando sua coxa e ignorando as palavras do superior - acho que me acertaram de jeito.

Barreto olhou mais atentamente a perna direita de Jordão, forçando os olhos para enxergar melhor à meia-luz. Só então viu a enorme poça de sangue que a circundava.

- Puta merda! - exclamou ele - Quer que eu dê uma olhada?

- Pra quê, Barreto? Você não entende porra nenhuma disso. Deve ter acertado uma artéria... Olha, o único jeito de eu, e provavelmente vocês, sobrevivermos a essa merda é se vierem nos resgatar rápido, o que acho improvável. Que que cê acha, sarja?

- Todo mundo aqui sabe como funciona, Jordão. Ninguém fica pra trás. Eles virão, cedo ou tarde. Mas virão - concluiu Lopez.

As palavras do sargento foram as últimas ditas em uma pausa de longos minutos. Eles sabiam daquilo. Viriam resgatá-los, de alguma forma. Mas conseguiriam chegar a tempo? Por instantes aquilo ocupou-lhes a mente, num sofrimento latente de imaginar tudo o que poderiam fazer, se saíssem dali com vida.

Então, sem mais nem menos, a cabeça de Jordão despencou sobre o peito.

- Jordão! - gritou Barreto, desesperado, aproximando-se do colega. Solano, ao seu lado, virou-se assustado e levantou sua cabeça. Os dois analisaram-no e em poucos segundos constataram: estava morto. Perdera muito sangue.

- Merda, MERDA! - exclamou Barreto, voltando para a parede - Silva, agora Solano... Daqui a pouco seremos nó--

- Sem choro, soldado! - interrompeu Lopez - Agora somos só nós três. Nós ou eles lá fora. Quando tudo acabar, você vai ter tempo de chorar a morte dos dois.

Barreto engoliu o pesar. Continuaram quietos por mais um minuto. Foi o quanto Solano conseguiu segurar-se.

- Puta merda - disse ele - Tô impressionado com esses idiotas. Quero dizer, são só táb--

Lopez abaixou a arma e disparou. Uma bala passou zunindo pela cabeça de Solano.

- CARALHO, SARJA! - assustou-se ele.

- Soldado, você tem certeza de que não quer calar a boca? - disse o sargento, agora mirando o rifle no meio de seus olhos.


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No mais, confira o espaço que o blog da OCT (Operação Cavalo de Tróia) dedicou ao lançamento da nossa 8ª edição, clicando AQUI!

domingo, 23 de novembro de 2008

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Capa da 8ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

"O primeiro deles entrou pulando, mas virado para o lado errado; foi jogado para frente no ar e caiu de boca no chão, com mais de vinte balas cravejadas em toda a extensão traseira de seu corpo. Os homens seguintes entraram mirando o lado certo, embora atirassem a esmo. O ambiente foi inundado por uma sinfonia sangrenta e frenética, de dentes cerrados e olhos incandescentes. Caíram conforme entraram, uns sobre os outros, numa carnificina incontrolável. A música só cessou quando o último da fila caiu, metade de seu corpo além da soleira da porta."

A Bravo 6 ficou encurralada durante
uma missão. Enquanto os soldados
lutam pela
vida, resistindo a
incontáveis
inimigos, sua salvação
se aproxima.
Ou não?


(extraído da contracapa - edição 8)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

7ª edição à venda!!!

Corra já para comprar a sua!

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sábado, 25 de outubro de 2008

Capa da 7ª edição!


(clique na imagem para ampliá-la)

"Saiu inspirando fortemente o ar fresco da manhã. Cumprimentou o vizinho da frente, que também saía para o trabalho, com um aceno de cabeça e um 'bom dia' vigoroso. Desligou o alarme do carro com um aperto no botão do controle acoplado à chave, abriu a porta e ligou o rádio. Deu a ré e saiu calmamente pela rua, aproveitando cada momento, pensando na casa e na família que acabara de deixar para trás. Sua vida era maravilhosa."


Borkman vive a vida dos sonhos:
tem a esposa perfeita, os filhos
perfeitos, a casa perfeita, o emprego
perfeito... Mas algo está errado,
terrivelmente errado.

(extraído da contracapa - edição 7)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

**O Grande Dia de Krentz - CEBolso nº 02

Aqui se encerra o conteúdo da CEBolso nº 02 com um pequeno conto medieval de minha autoria:

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O Grande Dia de Krentz
Ricardo Santos

Ontem ele me disse que seria algo grandioso. Como de costume, sua barba branca tremia enquanto sua boca abria e fechava para expelir as palavras proferidas com tanto ardor. Eu pude sentir, enquanto ouvia, a raiva que permeava suas falas. Eu pude sentir o desejo de vingança que exalava em seu bafo podre de hidromel azedo. Prenunciava as mortes com tanta alegria que não parecia ser um homem que outrora dedicara-se inteiramente a Deus. Se por um lado estava tão contente que não conseguia conter-se, e por isso precisava da ajuda do álcool para digerir suas emoções, eu tremia de medo, pois o dia seguinte seria o dia de minha prova, o dia em que todos saberiam se eu era digno de ostentar o título que conquistara anos atrás, quando a ameaça fora destruída pela lâmina de minha espada.

Assim que o dia raiou hoje, a primeira coisa que fiz foi tomar o leite fresco que Imelda acabara de tirar de nossa vaca, tão magra e desnutrida que pude sentir o leite desencorpado descendo na garganta feito água. Depois fui ao nosso pequeno santuário rezar aos deuses para que nos dessem forças nesse dia tão sombrio.

E agora aqui estou, a caminho do campo de batalha, longe de todos os outros soldados, sem coragem de abrir a boca para dizer uma palavra de consolo aos mais jovens, que vejo me olharem curiosos e admirados, como se minha presença fosse garantia de vitória certa. O peso nas minhas costas é imenso. Tantas vidas esvair-se-ão hoje, e minha vontade é de poder salvar todas, mas sei que as baixas estão inexoravelmente ligadas às guerras. É a lei da natureza.

-X-

O suor escorre de meus cabelos trançados. Eu torço para que ele não atinja meus olhos e me cegue, enquanto giro a espada entre meus inimigos, dilacerando seus corpos, banhando o campo de sangue. Meus machucados são irrelevantes. Tenho que continuar matando, sem parar. Uma dúzia deles tenta me acertar enquanto manejo a incansável lâmina. Os corpos tombam, eu continuo. Sinto o peso de muitos olhares sobre mim. Quando grito, minha força parece dobrar, fazendo meus inimigos recuarem de medo, como se minha voz pudesse arrebatá-los, jogá-los para longe. Meus braços com as veias saltadas cansam-se, mas não param.

-X-

Assim que sento no chão, ao lado de tantos corpos, finalmente vejo o que me fizeram. Vejo um corte gigantesco em minha perna, vejo minha barriga com linhas de sangue que se esvaem de buracos de estocadas rápidas e grotescas.

Vejo logo que não tenho muito tempo. Os garotos olham-me com cara de espanto. Imelda vem correndo de longe, minha vista embaça, parece que ela nunca vai chegar. Eu fecho os olhos por um instante, pensando no alívio de ter feito o que queria. Ganhamos a guerra. Abro os olhos. Imelda chega, chorando, me abraça, deita minha cabeça sobre seu colo. No mar de sangue que nos envolta. É aqui mesmo que me vou. Sobre os meus troféus, sobre os espólios de guerra. Sobre a grama vermelha. Sobre os campos dos deuses. Sob os deuses. Me recebam.


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Em breve: a capa da 7ª edição!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

**Lobo - CEBolso nº 02

Continuando a postagem de contos da 2ª edição da CEBolso, aqui vai o segundo:

Lobo
Alvaro Souza

O whisky puro flamejava garganta abaixo. Espremia por um instante os olhos vermelhos e ardidos na hora de engolir. Ao abri-los novamente, tomava consciência de si e da realidade ao seu redor. Ainda não era o bastante. Ainda podia sentir.

- Me dá mais um – pedia, a voz um rosnado arrastado que já traía a embriaguez.

- Ei, Thom, será que você já não bebeu demais? – o gordo dono do bar tentava, como de costume, encerrar a bebedeira do velho enquanto ele ainda era capaz de caminhar para casa.

- Hã?!... – o homem não entendeu de imediato, parecia surpreso e confuso por falarem com ele - ...não enche não, Paulão, serve logo e não reclama, que é a minha pensão que te sustenta! – esbravejou, depois de uma pausa para se orientar. O velho minguado e raquítico, uma figura inofensiva, agigantava-se sob o efeito da bebida – Põe logo essa merda dessa dose!

Querendo que ele parasse de beber! Um sujeitinho que nunca teve a pólvora negra ou o sangue viscoso nas mãos, que ficou gordo na paz proporcionada por homens de verdade como ele! – ...querendo que eu pare de beber... – pôde-se ouvi-lo balbuciar. Virou o copo tão logo o barman terminou de enchê-lo. Seus cabelos grisalhos e desgrenhados eram sebosos, como se não tomasse banho há dias; a barba acinzentada por fazer dava ao rosto magro e ossudo um aspecto ainda mais macilento. Nunca fora muito alto, e agora parecia ter encolhido, curvado e artrítico. Sentado lá, ganindo resmungos para si mesmo, babando ao virar um copo atrás do outro, estremecendo violentamente após cada golada, Thom era a imagem de um cão em agonia ensandecida.

Não tinha família nem amigos na cidade. Sabiam que ele era um veterano do Exército Integrado, mas pouco mais do que isso. Normalmente, tão logo ficava bêbado, iniciava suas bravatas, histórias confusas e embaralhadas que contava no balcão, para ninguém em particular, das quais todos riam, os devaneios de um velho louco. Pessoa alguma acreditava que ele tivesse feito aquelas coisas. Não davam nada por ele.

Na última semana, no entanto, seu comportamento mudara; andava pelas ruas como um vira-lata neurótico, sobressaltava-se com qualquer barulho, assustava-se quando alguém se aproximava, como se estivesse num transe, num mundo só seu, do qual a realidade vinha tirá-lo momentaneamente, um mundo assombrado e angustiante. A bebida não tinha o mesmo efeito, a embriaguez não vinha mais expansiva e relaxante. Pelo contrário, bebia quieto num canto do balcão, murmurando consigo mesmo e tremendo, o álcool no qual tentava refugiar-se parecendo confiná-lo cada vez mais à companhia dos demônios dos quais queria escapar.

- ENTÃO ATIRA VOCÊ!! – a explosão repentina assustou a meia dúzia de outras pessoas espalhadas pelo bar. Imediatamente olhou à sua volta, surpreendido pela presença delas ali; varreu o recinto com o olhar, como se o observasse pela primeira vez, até que pousou os olhos esbugalhados no copo vazio em sua mão, e já ia estendê-lo para Paulão, quando este perdeu a paciência:

- Já chega!!! Você não vai beber nem mais uma gota, seu velho desgraçado!!! Perturbando o meu bar!!! Vai-te embora, bêbado nojento!!! – e ia levando a garrafa, que estava próxima de onde Thom sentava, de volta para a prateleira.

- NÃO!! EU QUERO MAIS!!! – o velho lançou-se à frente, tentando agarrar o braço gordo por cima do balcão, meio que atirando-se por sobre o móvel – VOCÊ NÃO É NINGUÉM PRA ME IMPEDIR SEU LIXO PARASITA DA RECONSTRUÇÃO!!!! – lutava furiosamente com o homem muitas vezes maior e mais pesado, a saliva voando com os rosnados ameaçadores, batendo os dentes como que ensaiando uma mordida. Um freguês aproximou-se por trás, segurando-o pelo braço, e foi repelido por uma cotovelada no rosto, um acidente no meio da confusão, todos pensaram na hora, mas ainda assim um golpe surpreendentemente forte e que lhe partiu o nariz, lançando-o de bunda ao chão.

O braço recém-libertado tomou a garrafa dos dedos robustos do outro lado do balcão, um movimento rápido e vigoroso, que deixou perplexo o dono do bar. Thom afastou-se de um salto do balcão, aprumou as costas contra a parede, a alguns metros da porta, todo ameaça, preparado para se defender de um segundo ataque, uma fera acuada pronta para a orgia de sangue da luta até a morte. Um taco de alumínio surgiu por detrás do balcão, nas mãos do gigante obeso, que arfava. Os demais clientes, em pé, formavam um semicírculo hesitante, receoso de avançar sobre o velho, não mais tão inofensivo assim.

- Eu já chamei a polícia! – a voz do rapaz vinha alta e desafinada dos fundos do bar; o filho de Paulão, que limpava os banheiros quando a confusão começou, trazia um celular, que agitava na mão a alguns centímetros do rosto. Todos pareceram parar por um instante.

- Pega essa merda dessa garrafa, enfia tua pensão no cú e vai logo embora daqui!!! – berrou seu pai na direção do velho, que rosnava eriçado, dentes à mostra – desaparece e nunca mais volta, seu vagabundo! Se achando tão melhor que os outros porque descascava batata e limpava privada na guerra!!! VAI!!!

BLAM!!! – o taco golpeou violentamente o banco redondo em que Thom estivera sentado, e os homens assistindo puderam ver até a alma do velho estremecer.

- AAAARRRRGGHHHHH – o urro parecia vindo de outra dimensão, reverberou por todo o estabelecimento, violento, desesperado, todos os presentes encolhendo-se diante dele. Os olhos esbugalhados eram aterrorizantes, os dentes amarelados, presas ameaçadoras. Com a garrafa firmemente abraçada junto ao peito, sob o braço direito, tateou com a mão esquerda, enquanto recuava lentamente de costas, até encontrar a maçaneta. Abriu a porta e saiu rapidamente para a calçada, não dando as costas em nenhum momento para os inimigos, que o observavam boquiabertos, sem ação.

Lá fora, o sol do meio da tarde apunhalou seus olhos com uma dor lancinante. A garrafa ainda apertada sob o braço, caminhou dois ou três passos rua abaixo, afastando-se da porta do bar em sentido contrário ao dos carros que passavam. Parou, sem rumo, não sabia aonde ir, não tinha nem certeza quanto ao que acabara de acontecer. Deu meia-volta, mas não saiu do lugar; olhou para o outro lado da rua, mas não reconheceu nada de familiar na cidade em que morava havia anos. A confusão mental intensificara-se com a exaltação de momentos atrás. Apertou os olhos e chacoalhou a cabeça, tentando clareá-la.

- Ei, senhor, fique parado!! – o grito trouxe-o de volta. A viatura acabara de encostar bem atrás de dois carros estacionados junto ao meio-fio, os dois policiais caminhavam cautelosamente em sua direção. Exasperado pela interpelação áspera do guarda, por um instante pareceu apavorado. As mãos tremiam, os olhos piscavam loucamente enquanto olhava, aturdido, ao seu redor. Os homens aproximavam-se devagar. A arma na cintura. A farda azul. Aquela farda não era a sua. Feições ameaçadoras.

- Nós só vamos levá-lo daqui, e o senhor não vai dar trabalho, certo?! – as armas. A farda. Que não era a sua.

O desespero e a agitação deram lugar a uma serenidade estática, como se uma chave em seu cérebro tivesse fechado um circuito há muito em desuso. Tolos. E um par de soldadinhos de merda desses, recém saídos das fraldas, lá seria capaz de neutralizá-lo! Os melhores do mundo já tentaram, teve vontade de dizer, os melhores do mundo! E sobrevivera a todos eles! Todos! Esses bostinhas achavam que o tinham encurralado? Desarmado e sozinho no meio da rua? Deixaria os desgraçadozinhos tentarem!

A coluna ereta parecia ter recobrado a estatura de outrora. Cabeça erguida, respiração compassada, a mão esquerda baixada ao lado do corpo, a direita segurando firme a garrafa. O olhar sinistro oscilava de um soldado para o outro, encarando-os nos olhos, o modo correto de se fazer. Não era mais o animal encurralado em desespero, era o caçador ardiloso, prestes a se abater sobre a presa indefesa e em desvantagem. Toda essa repentina frieza produzia o efeito esperado de intimidar aqueles rapazes, que não compreendiam como um velho bêbado podia fazer o suor gelado brotar de seus poros daquele jeito. Confusão já não mais existia em sua mente, que operava como a máquina perfeitamente azeitada, que o treinamento projetou e a violência teve anos para aperfeiçoar.

A calçada era razoavelmente larga, mas os três veículos enfileirados em frente ao bar transformavam-na em um corredor perfeito para se inverter a vantagem numérica de seus oponentes. Estava alinhado com o pára-choque dianteiro do primeiro carro da fila; o policial que gritara com ele aproximava-se pelo centro da calçada, e já passava da roda traseira do carro do meio. Seu colega seguira alguns metros atrás, parando na linha do pára-choque dianteiro da viatura, só que mais à esquerda de Thom, rente à parede de um edifício. Parecia ter escolhido aquela posição para dar cobertura ao parceiro; sua mão abriu lentamente o fecho do coldre e puxou metade da pistola para fora, mantendo-a naquela posição. Faça o melhor que puder, filho. Aquilo era o máximo que podiam mandar atrás dele?

As jaquetas estufadas denunciavam os coletes à prova de balas. Bom. Como o lobo que prepara a emboscada, Thom recuou sutilmente para a esquerda, e o homem da frente correspondeu da forma esperada, desviando-se um pouco para a sua direita e continuando a se aproximar, seguro de que dera ao companheiro uma linha de tiro limpa. O velho permanecia estático, pareceria resignado. Esperar o momento certo, calcular a distância com precisão, tudo isso fazia parte de suas funções mais primárias. O guarda estava bem próximo agora, percorria os últimos metros; levou a mão direita à algema, pendurada no cinto ao lado da arma, sobre a perna direita.

E fechou-se a armadilha, a alcatéia de um homem só cravando os dentes na garganta de sua vítima, aguardando o jorro morno da vida que se esvairia em vermelho. Thom soltou a garrafa, dando um passo impetuoso com o pé direito em diagonal, rápido como um raio, na direção do inimigo. Antes de o vidro espatifar-se no chão, seus braços, velozes como o bote de uma serpente, atacaram. Os dedos da mão direita golpearam a traquéia do sujeito, deixando-o imediatamente fora de combate; a mão esquerda agarrou o braço direito que pegava a algema e, no tempo que o segundo policial levou para terminar de sacar a arma e puxar o gatilho, já havia recuado trazendo o corpo inerte para junto de si, usando-o como escudo, girando o próprio corpo de modo a encaixar-se no do oficial e escorá-lo, como se este o encoxasse por trás, bem no momento do choque da bala contra o kevlar sob a jaqueta. Ato contínuo, sem interromper seu movimento giratório, levou a mão direita à perna do homem às suas costas, puxando e destravando sua pistola a um só movimento; completou o giro, ajoelhando-se e atirando contra o soldado remanescente antes do mesmo ter tempo de puxar o gatilho de novo, enquanto o primeiro despencava bem ao seu lado. Dois disparos precisos, da maneira como fora ensinado a enfrentar homens de colete. Um na cabeça. Um na virilha.

Ficou de pé. A respiração, não mais tão controlada assim; as mãos, já começando a tremer novamente; os olhos piscando outra vez, a intervalos cada vez menores. Realidade e alucinação mesclavam-se em sua mente, numa dança furiosa que o fez apertar a cabeça com força, usando as duas mãos, a arma ainda na direita. Ao seu redor, o pânico da matança já dava seus clássicos sinais, arrebatando instantaneamente todos que nunca precisaram praticá-la.

Como se arrancado de um devaneio, Thom correu, passando pelo policial baleado e apanhando sua arma, imprimindo a máxima velocidade que suas pernas velhas agüentavam, fugindo desesperadamente da violência que, por tantos anos reprimida, rompera o lacre e vinha uivando inundar sua vida novamente.